
“A história é um conjunto de variáveis”, afirma John Parker. E segundo o dicionário Michaelis, “variável” é algo sujeito a variações, inconstante, mudável. Conclui-se daí que, se seguirmos o ponto de vista de Parker: a história muda.
E estamos falando de história no sentindo literal, histórico. Ou seja: o que existiu, o que aconteceu, o que seria, na teoria, imutável. E não variável.Mas também estamos falando de décadas e décadas de pouca informação, restrições tecnológicas, gerações se sucedendo e contando, à sua maneira, a sua história. Como um enorme e atemporal “telefone sem fio”.
E é daí que nascem as lendas, os mitos, a crença popular e a nova verdade. Até que, entretanto, as variáveis se afunilam e, através de documentos e relatos, tornam-se novamente: a história.
Toda essa introdução para prefaciar as conclusões da minha própria pesquisa sobre um fato ocorrido há mais de oitenta anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1929: o Incêndio na Matriz de Santo Antônio.
A edição nº 1068 do Jornal “O Tambahú” de Domingo, 13 de Outubro de 1929, traz em sua última página a notícia intitulada “Incêndio na Matriz”.
Vou reproduzir aqui trechos da matéria. E como reforma ortográfica está novamente em moda, manterei a forma e grafia com que foi redigida na época:
“Pela manhã de ante-hontem foi o povo desta prospera cidade tristemente suprehendido em seus affazeres pelo subitâneo incendio da Igreja de Santo Antonio, matriz desta parochia. As 8 horas da manhã, pouco mais ou menos, corria pela cidade a lamentável noticia, tendo o povo acorrido em massa, dirigindo-se para o local; porém, pela escassez d’agua e falta de appareihamento adequado a extincção de incendios, nada conseguiu fazer, pois o fogo já era intenso; embora transportando água em latas das casas vizinhas e por meio de caminhões, foram apenas salvos duas imagens pequenas e outros objectos do culto, sendo o mais devorado pelas chammas e restando apenas as paredes da referida matriz”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).
Deste trecho podemos destacar duas informações: a primeira é o horário do início do incêndio – por volta das oito horas – dado já assinalado pelo Padre Donizetti Tavares de Lima, no livro Tombo nº 2 da paróquia, à página 48 que traz exatamente o seguinte texto: “A onze de outubro deste anno de mil novecentos e vinte e nove, às 8 horas da manhan, quando precisamente o vigário celebrava missa na egreja São José, sita no Patrimônio, dava-se o pavoroso incendio que fez arder completamente a egreja Santo Antonio, matriz local. Estava ella confiada a Ernesto Rissardi e empregados, para limpeza e reparos externos, trabalho que custou uns treze contos de reis. Examinados os destroços, paredes, fios queimados, por um technico competente, foi constatado que teve por origem um curto-circuito. Nada se poude fazer em favor da parocchia em vista de natural proteção das autoridades locais à Companhia Força e Luz São Valentim.”
A segunda e intrigante informação é a frase “foram salvos duas imagens pequenas”. Até então tínhamos como certo apenas o salvamento da imagem de Nossa Senhora. O jornal “O Tambahú”, no entanto, não denomina quais eram as imagens.
Apenas como curiosidade, acrescento aqui, antes de entrar em outros detalhes, mais um trecho da referida matéria:
“Conforme fomos informados, o prejuízo monta em cento e cincoenta contos de reis aproximadamente. O commercio desta cidade permaneceu fechado e diversas fabricas suspenderam os serviços durante esse dia, em signal de pezar”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).
Quando resolvi aprofundar um pouco este assunto fui até a biblioteca municipal procurar no arquivo do jornal “O Tambaú”, que está sendo reorganizado, a edição que relatava o incidente na Matriz. Não encontrei o exemplar naquela ocasião, apenas semanas depois.Os exemplares de 1929 foram encadernados e estão guardados em outro local até que a biblioteca tenha um local adequado para o armazenamento e conclua a encadernação dos demais exemplares.Há poucos dias, pesquisando também o acervo do Museu Histórico “Ernesto Ricciardi” – igualmente passando por uma reorganização – encontrei recortes de um exemplar do jornal “A Ordem – Órgão do Partido Republicano de Tambahú” que, confesso, não sabia que existia.Com redação à Rua Santo Antonio, nº 10 e sob direção de Antonio de Almeida Santos Sobrinho, a edição nº 140, de 13 de Outubro de 1929, traz como manchete “Matriz de Santo Antonio – Pavoroso Incendio destroe o Bello Templo da Cidade”.
A exemplo do anterior, reproduzo aqui trechos da matéria com a grafia original:
“Pelas sete e meia, mais ou menos, da manhan de sexta-feira ultima, 11 do corrente, uma notica pungentíssima sacudia a população local: a nossa matriz era presa de um incêndio.A essa hora, de facto, muita gente já havia observado, à distancia, a ascensão de grossos e negros rolos de uma fumaça, pelas immediações do Largo de Sto. Antonio, mas sem nunca suppor que tremenda catastrophe se realizava.Entretanto, a nova acabrunhadora célere se foi propalando. Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso. Finda a cerimonia seguiu, sem perda de tempo, para a igreja sinistrada, em cujas proximidades a multidão, que accorrera aos primeiros rebates, pronta a prestar auxílios, assistia, estupefacta, ao seu desmoronamento. É que já era impossível qualquer esforço: o fogarêo, pressentido tarde demais, já havia assoberdado o templo. Inútil qualquer tentativa”. (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).
Destaco uma citação deste trecho: “Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso”.Portanto, segundo este jornal, publicado dois dias após o fato, Padre Donizetti estava celebrando na Igreja São José quando ocorreu o incêndio, fato também confirmado pelo relato do livro Tombo.Continuemos acompanhando a notícia, em um trecho que, se não muda a história como a conhecemos, acrescenta elementos importantes:
“Alguns abnegados, porém, em lances heróicos, vencendo as chammas, haviam lhes arrebatado a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera, há 40 annos, destinada à capellinha construída pelo Cap. David de Almeida Santos, há tempos demolida; e, bem assim, a imagem, também pequena, de Nossa Senhora d’ Apparecida, milagrosa padroeira do Brasil, e alguns paramentos.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).
O trecho cita alguns “abnegados”, palavra que define “o que se sacrifica desinteressadamente por alguém ou alguma coisa”. Nota-se que são citados no plural, portanto mais de uma pessoa teria entrado na igreja em chamas para salvar as imagens, também no plural.
Sobre a imagem de Nossa Senhora não é preciso acrescentar nada, tamanha a sabedoria popular e relatos posteriores existentes. Segundo esses próprios relatos, de pessoas com mais idade, de historiadores e pesquisadores, um desses “abnegados” teria sido o senhor Ângelo Latari, fato confirmado por sua viúva Ana Silva Latari, hoje com 95 anos, residindo em São Paulo e completamente lúcida.
Respondendo a questão 5.20 do primeiro “Questionário para Testemunhas” elaborado pelo então postulador Padre Dante Donzelli e pelo colaborador José Wagner Azevedo (em 8 de Setembro de 1993) onde se perguntava “que detalhes V. Sa. sabe sobre o incêndio da Igreja Matriz de Santo Antônio?” e “Qual foi o comportamento do Padre em relação a este acontecimento?”; Vera respondeu da seguinte forma: “Ele ficou muito abalado com o incêndio. A igreja estava se queimando e o povo estava assistindo sem poder fazer nada. O senhor Ângelo Latari entrou pelo lado da igreja, em meio as chamas, arriscando a vida, e retirou a imagem de Nossa Senhora, sem sofrer nenhum arranhão”.
A matéria do jornal “A Ordem” cita ainda “a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera”, que também teria sido salva pelos corajosos homens. Orago é uma palavra do português europeu que significa “padroeiro”.
Concluímos então, não por dedução pessoal e sim pelo relato da imprensa publicada dois dias depois do incêndio – a exemplo de hoje, os jornais eram publicados semanalmente – que duas imagens foram salvas do incêndio.
Atente para o fato do primeiro jornal (O Tambahú) citar isso: “foram apenas salvos duas imagens pequenas” e do segundo (A Ordem) relatar inclusive quais foram elas.
A imagem de Nossa Senhora está hoje de posse da Paróquia do Santuário Nossa Senhora Aparecida, construído justamente “para a conservação da milagrosa imagem”, conforme edital que teria sido publicado pelo Padre Donizetti em 1946 (informação descrita na revista Monografia Brasileira – Tambaú, pág. 7, em 1964).
A imagem de Santo Antônio, que igualmente teria sido salva do incêndio e, claro, confirmando-se ser a mesma em questão, estaria sob responsabilidade de uma família, não citada aqui por questões éticas, desde a década de 60 ou 70, por ordem do então pároco Padre Luis Girotti.
“A população, compungida, contemplava a tudo aquilo com lágrimas nos olhos. Durante todo o dia foi intensíssimo o movimento no Largo Santo Antonio e muitos foram os commentarios a respeito do sinistro cuja causa, até a hora em que traçamos estas linhas, não estava ainda perfeitamente averiguada (...) Attendendo ao appelo do Prefeito do município, o comercio cerrou as portas, em manifestação de pesar, assim que foi divulgada a catastrophe e, pelo mesmo motivo, a empresa do Cine Royal suspendeu o espectaculo desse dia.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).
Outra edição do Jornal “O Tambahú”, em 24 de Maio de 1931, sob o título “As Obras na Matriz”, já fala da reconstrução e cita o trabalho de dois homens: Ângelo Latari (“Chamam-nos. É o Angelo Lattari. Estende-nos sorridente a mão. Convite amável: - Não quer ver como vão adiantadas as obras na Matriz?”) e Ernesto Ricciardi (“No alto, sobre os andaimes da capella-mór, o Ernesto Ricciardi pincelava”).
Esta matéria não tem nenhuma intenção de reverter fatos, provocar polêmicas, desconstruir crenças ou denegrir o que quer que seja. E muito menos de alterar, apesar do pleonasmo, as variáveis da história.
Tem sim o objetivo de trazer ao conhecimento de todos, mais de oitenta anos depois, detalhes curiosos de um acontecimento que, hoje sabemos, mudou para sempre a história de uma cidade, confirmando a fé de um povo, a bravura de tambauenses, a santidade de um sacerdote e o poder de Deus, materializado em centenas de milhares de milagres que se sucederam àquela manhã de sexta-feira de 1929.
No
livro “Padre Donizetti de Tambaú”, de José Wagner de Azevedo, há o relato de Maria do Rosário Meirelles que descreve
“Havia acabado a missa da Igreja São José, lá pelas 8:00 h. Era um dia de
semana. Aparecida Resende, Mariquinhas
Resende, o Padre e eu saíamos da Igreja. Vimos ao longe o incêndio da
Igreja Santo Antônio. (...) Alguém pega o Padre de carro e o leva rapidamente
para o local do incêndio. Eu subi, a pé, apressadamente com as companheiras. A
igreja fumegava. A fumaça saía pela torre. O
Ângelo Latari salvou a imagem de Nossa Senhora Aparecida.”
Paulo Rogério B. Rocco