domingo, 1 de novembro de 2009

Vozes do Passado - Custódio Rezende

Paulo Rogério B. Rocco

“As canções em nossa memória vão ficar. Profundas raízes vão crescer. A luz das pessoas me faz crer”.

(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)

Continuando a série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo uma entrevista realizada em 22 de Julho de 1979 com Custódio Ribeiro de Rezende, amigo pessoal e motorista do vigário.
Custódio ficou conhecido principalmente por seu trabalho com sucata, durante tantos anos. Nasceu em 25 de Março de 1933 e faleceu em 03 de Fevereiro de 1994.
Bem vindos mais uma vez ao trem da história.

Entrevista com Custódio Ribeiro de Rezende

Pergunta – O senhor foi motorista do Padre Donizetti durante quanto tempo?
Custódio – Durante quatro anos.

P – O que o senhor lembra de interessante na vida do Padre Donizetti?
Custódio – Muitos milagres. Diversos milagres que eu vi.

P – Sobre a pessoa dele, o que mais que o senhor lembra?
Custódio – Ele era bom. E ele era enérgico. Gostava das coisas certas, direitas.

P – Ele fez coisas pelos pobres?
Custódio – O que ele ganhava ele distribuía para os pobres. No aniversário dele, dia 3 de Janeiro, ele dava mercadoria, roupa, agasalho, tudo para os pobres. Ele ia ao armazém e fazia despesa de um mês para famílias que precisavam.

P – Ele tinha problemas com fazendeiros?
Custódio – Não tinha, não. Ele ganhava muitas coisas dos fazendeiros: arroz, criação. Não só dos fazendeiros daqui, como os de fora.

P – Ele gostava dos ricos e dos pobres?
Custódio – Ele não tinha distinção. Ele tratava bem todo mundo.

P – Alguém falava mal dele?
Custódio – Nunca ouvi ninguém falar mal dele.

P – Você sabe por que ele saiu lá de Vargem Grande?
Custódio – Ele contou pra mim essa história. Disse que tinha uns fazendeiros de lá, porque ele era muito do lado dos pobres, que achavam que ele era comunista. Ele contou esse fato de quando era vigário lá. Um fazendeiro, um tal de Fontão, fingiu que um homem tava doente e mandou chamar o padre. E os capangas dele foram chamar o padre Donizetti. Chegando na casa dele, disseram que era pra ele ver o homem doente para ir dar extrema-unção. E Padre Donizetti disse aos capangas que já era tarde, pois o homem doente já estava morto. E foi o que aconteceu. Tentaram fazer mal para o padre Donizetti. E aí depois veio o castigo do fazendeiro. Esse Fontão, de Vargem Grande, perdeu quase tudo e ficou doente, muito doente, mas não morria. Ele tinha três fazendas e ficou com uma. Nessa época Padre Donizetti já era vigário aqui em Tambaú. Aí veio o recado que era para o padre ir lá dar o perdão para o homem antes dele morrer. Aí ele não foi. Um dia veio o vigário de Vargem Grande aqui e disse: “Padre Donizetti, eu fiquei triste porque soube que você foi na minha cidade, visitar o Fontão, viram o senhor entrar lá, ficar em volta da cabeceira da cama e dar o perdão a ele, antes de morrer. Eu fiquei sentido porque o senhor não chegou até minha casa”. O que aconteceu foi que, ao mesmo tempo da reza daqui, Padre Donizetti estava lá dando perdão para o fazendeiro. Ele tinha esse poder da bi-locação.

P – E o que o Padre Donizetti respondeu para o padre de lá?
Custódio – Ele deu aquela risada gostosa e disse: “Eu não fui lá, não, padre”. Mas ele foi sim, viram ele lá na cabeceira da cama do homem que tava ruim. Ele deu perdão para o homem e o homem morreu.

P – E o que o Padre Donizetti falava sobre os milagres?
Custódio – Ele falava que quem fazia os milagres era Deus. “Eu peço pra Nossa Senhora e ela pede para Deus. Quem faz é Deus”.

P – Ele ficava orgulhoso desses milagres?
Custódio – Ele só queria fazer o bem. Fazer caridade. Vinha gente passando mal. Ele dava a benção e essas pessoas saravam na hora.

P – O senhor chegou a ver milagres?
Custódio – Eu vi diversos. Paralíticos deixavam muletas, cadeiras de rodas e saiam andando. Até agora tem tido milagres por intermédio dele.

P – O senhor acredita que o Padre Donizetti é um santo?
Custódio – Eu acredito que ele seja um santo mesmo. Pelo que ele fez em vida. Dias antes de morrer ele falou: “Agora Custódio é tempo de eu me despedir deste mundo. Nossa Senhora é minha intercessora, eu peço a ela e ela pede a Deus. Depois que eu me despedir deste mundo, vou pedir diretamente para Deus e todos que pedirem em meu nome serão atendidos”. No dia da morte dele, lá na igreja, teve uma pessoa que deixou a muleta do lado do caixão dele.

P – Como ele tratava as pessoas?
Custódio – Ele tratava todo mundo bem. Os romeiros, as pessoas daqui mesmo. Ele atendia sem distinção. Para ele não tinha nem qualidade, nem cor, rico, pobre, ele tratava bem todo mundo.

P – Ele teve problemas com políticos da cidade?
Custódio – Ele falou pra mim de uns casos que teve quando ele veio para Tambaú. Ele contou que foi taxado como comunista aqui também. Os que foram contra ele aqui foram todos castigados. Ele mesmo falou pra mim. Ele contou do caso de quando ele veio e foi processado como comunista. Ele perdeu aqui no fórum de Casa Branca e os papéis foram para o Rio de Janeiro. Um padre de lá, amigo dele, ofereceu advogado para ele se defender. Ele disse que o advogado dele era Deus. Quando chegou no dia do julgamento, os papéis do processo desapareceram. Ai não deu em nada.

P – O senhor conheceu algum parente do Padre Donizetti?
Custódio – Conheci irmãos deles, o senhor Mozart, que morava em Pinheiros, em São Paulo. A cunhada dele, que morava em Monte Santos de Minas. O sobrinho, Dr. Chopin.

P – O que o povo de Tambaú pensa hoje do Padre Donizetti?
Custódio – Acho que a fé dele vai sempre aumentar. Semana toda tem romeiros que vem procurar a cura. Tem tido milagres no túmulo dele.

P – Tem muita gente ganhando dinheiro à custa do Padre Donizetti?
Custódio – Isso tem. Procuram explorar isso. Em todo lugar tem isso, como em Aparecida do Norte. As pessoas procuram ganhar o pão.

P – No tempo que o senhor foi motorista dele, o senhor era registrado?
Custódio – Registrado não. Quando ele comprou um carro, eu deixei de viajar e vim morar e trabalhar com ele. Ele era meu padrinho de crisma. Cuidei dele. Morei com ele durante uns quatro anos.

P – Que carro pertencia a ele?
Custódio – Era um Impala.

P – Ele viajava muito?
Custódio – Íamos sempre a São Paulo, na casa do irmão; em Minas, na casa da cunhada, em Franca. Ele viajava sempre para Ribeirão, para fazer comprar no mercado, para o asilo. O dinheiro, o pessoal dava para ele. Muitos donativos. Do mundo todo. Uma vez vieram vinte portugueses que alcançaram uma graça lá em Portugal e vieram agradecê-lo. Os milagres estão todos registrados em cartas, muletas, aparelhos, óculos.

P – Quantos anos o senhor tem? É casado?
Custódio – Tenho quarenta e cinco. Sou casado e tenho um menino.