
sexta-feira, 8 de julho de 2011
“Donizetti, Pe” emociona um público de 1.900 pessoas

sexta-feira, 20 de maio de 2011
"Donizetti, Pe" será a maior produção teatral já realizada na região

Dia 24 de Junho estréia o novo espetáculo teatral do Grupo Curtura de Teatro, produzida pela Associação Cultural Quintal das Artes e que vai retratar a vida de Padre Donizetti Tavares de Lima (foto).
“Donizetti, Pe” é uma peça teatral escrita em 1995, por Paulo Rogério B. Rocco. Romanceada e publicada em 1997, sua forma teatral permanece inédita há mais de 15 anos. Até agora.
Para lembrar e marcar os 50 anos do falecimento de Padre Donizetti Tavares de Lima, a peça será encenada pela primeira vez.
A super produção – a maior já realizada em toda a região – contará com cerca de 70 pessoas, entre atores, bailarinos e técnicos, para levar ao público a vida do Sacerdote de Tambaú que ficou conhecido no mundo todo.
Da sua infância na cidade de Franca, até sua morte, o roteiro mostra os fatos e milagres que ajudaram a formar o mito que, em breve, deve se tornar um santo brasileiro.
Baseada em entrevistas, jornais, livros e na lembrança de grandes personalidades de nossa cidade, “Donizetti, Pe” irá relatar cada fato com muita emoção.
Os figurinos dos personagens eclesiásticos foram desenhados por José Eli Costa, obedecendo todas as normas contidas da confecção das batinas, inclusive no número de botões de cada roupa. Ao todo, a peça vai utilizar mais de 400 botões encapados. Roupas de época vão abranger os quase 120 anos mostrados na história. Adereços vieram especialmente da Itália para compor algumas peças.
A Trilha Sonora inédita está sendo composta e gravada pelo compositor Antonio Neto e as maquiagens responsáveis por fazerem reviver personagens reais da nossa história, estão à cargo de Júlio Someira e equipe.
“Donizetti, Pe” irá reunir no palco alguns dos maiores nomes do teatro tambauense, além de bailarinos da SAT–Academia de Dança, com coreografias de Silvia e Elaine Castro.
Efeitos visuais, projeções e cenários farão reviver as cidades pelas quais passou Donizetti; suas casas, sua gente e sua história.
A Co-Direção é de José Ono Júnior e a Direção Geral é de Paulo Rogério Rocco.
“Donizetti, Pe” será encenada nos dias 24, 25 e 26 de Junho, na Lex Luthor Club, uma das maiores casas de espetáculo da região e uma das únicas com capacidade para abrigar este Espetáculo.
Quem quiser pode acompanhar detalhes da produção pelo twitter: @Donizetti_Pe e pelo Facebook.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Próxima peça da Quintal das Artes deve ser sobre Padre Donizetti
A próxima peça produzida pela Associação Cultural Quintal das Artes deve retratar a vida de Padre Donizetti Tavares de Lima. A informação foi divulgada na página do twitter, da Associação, na quarta, dia 26.
O texto publicado diz o seguinte: “O próximo projeto teatral da Associação deve ser um texto inédito de Paulo Rogério Rocco, escrito há 16 anos, sobre o Padre Donizetti, de Tambaú”.
Paulo Rogério é autor do livro “Donizetti, Pe.”, romance que conta a história do padre, desde sua infância, até a realização dos primeiros milagres, no ano de 1954. O autor também prepara um roteiro cinematográfico com o mesmo tema.
Ainda não há informações sobre todo o elenco e como será a realização do espetáculo, mas, as datas já estão marcadas: Dias 24, 25 e 26 de Junho.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Vozes do Passado - Sebas Sundfeld
“Toda vez que o trem apita na curva da linha, faz parada obrigatória na estação do tempo”.
(Silvio Britto)
Encerrando a série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo uma entrevista realizada em 22 de Julho de 1979.
Não que as outras não tivessem sido especiais e gratificantes de serem reproduzidas, mas esta tem um diferencial. O entrevistado, além de meu amigo e pessoa culta, premiadíssima em concursos literários – cujas trovas e crônicas percorrem o país – ainda vive em Tambaú, cidade que presenteou com o hino, a bandeira e o brasão oficiais.
Professor, escritor, ex-vereador, patrono da Biblioteca Municipal, entre tantas definições, Sebastião Alicio Sundfeld, ou simplesmente Professor Sebas é o nosso entrevistado.
As opiniões descritas aqui são, obviamente, da época em que a reportagem foi gravada e demonstram apenas um pouco do grande conhecimento e o carinho que este homem, nascido em Pirassununga, tem até hoje, por Tambaú e por um dos personagens principais da nossa história.
Bem vindos à esta parada obrigatória na estação do tempo.
Entrevista com Professor Sebas Sundfeld
Pergunta – O senhor conheceu o Padre Donizetti?
Sebas – Pessoalmente. Fomos vizinhos por um longo tempo e meu casamento foi feito por ele.
P – Aqui em Tambaú? Em que ano?
Sebas – Eu vim para Tambaú em 1949. Data daí a nossa aproximação maior, principalmente por causa da vizinhança. Eu vim como professor para cá. Não morava aqui. Sou de Pirassununga. Nasci em 5 de Julho de 1924. Aluguei uma casa onde é hoje o Patrimônio, do outro lado da praça.
P – O senhor é professor de quê?
Sebas – Eu sou professor de duas escolas, do Alfredo Guedes e do colégio Padre Donizetti. Eu dou aulas de desenho. Eu estou para aposentar.
P – O que mais o impressionou na vida do Padre Donizetti?
Sebas – A sinceridade. Eu sempre achei o Padre Donizetti uma pessoa muito franca, muito sincera. E isso é uma característica de honestidade. Ele não titubeava em dizer aquilo que pesava. O que levava muitas vezes a ofender uma pessoa. Mas não aquela ofensa ostensiva, de agressão. Ele dizia com franqueza, com muita ponderação. Ele tinha uma inteligência rápida, um raciocínio instantâneo. Ele apreendia de pronto aquilo que a pessoa estava expondo pra ele. E já antecipava inclusive a conclusão de onde a pessoa queria chegar. É um privilégio que poucas pessoas possuem. É uma inteligência invulgar. Tinha uma formação moral muito grande e uma formação religiosa indiscutível. E outra coisa. Tinha uma ausência de preconceito. Ele não fazia diferenças sociais. Ele se dava bem como todo mundo.
P – Ele tinha alguma predileção por alguma classe social?
Sebas – Pelos pobres. Vou contar um fato curioso: logo que eu vim para cá, houve uma reunião convocada por ele, com várias pessoas, a fim de se fazer um trabalho para angariar roupas para os pobres. Em Pirassununga, havia um “roupário” onde roupas eram arrecadadas, reformadas e doadas. As pessoas que precisavam iam até esse local, escolhiam a roupa e saíam com ela. Quem doava a roupa não sabia para quem iria e quem pegava não sabia de quem era. E eu sugeri essa idéia a ele. E a resposta, com sua voz de barítono foi: “Não é assim que se agasalha o pobre, não é assim que se ajuda um necessitado. Roupa velha joga-se fora”. Assim ele entendia o sentido de ajudar a quem necessitava. Isso demonstra o grande carinho que ele tinha pela classe proletária.
P – Ele foi taxado de comunista?
Sebas – Quando isso ocorreu, eu não residia ainda em Tambaú. Depois que eu vim para cá ouvi comentários a respeito. Mas eu poria a mão no fogo, tranquilamente, que ele nunca, jamais, teria alguma tendência comunista. O que ele era, era um homem além do período em que ele viveu. Vamos dar um exemplo: Monteiro Lobato foi preso como comunista só porque ele falou que o petróleo existia no Brasil. E na época não convinha dizer isso. Eu colocaria o Padre Donizetti na mesma posição. Quando ele dizia que o patrão tinha que ajudar o empregado, o pobre, era chamado de comunista. Essa maneira de ele expor não era compreendida para a época. Quando eu vim para Tambaú, os empregados daqui seriam confundidos com ligeiras. Com mendigos. Naquela época era bastante sacrificada a classe operária. Muitas vezes o Padre Donizetti ia à casa de ceramistas e naquela conversinha, a pé do fogão, ia expondo o caso de certos operários daquela firma e ia conseguindo do patrão aquilo que o operário estava precisando. Ele não era apenas o padre, ele era o promotor, ele era o juiz. Ele tinha autoridade moral. E isso é incontestável. Eu vim para cá, já professor, já adulto, então era um observador estranho da personalidade do Padre Donizetti. Não se pode dizer que sofri influência na infância para dizer o que estou dizendo: a autoridade dele se impunha por sua força moral e também por sua grande cultura. Ele debatia qualquer problema, entendia qualquer assunto, seja de arte, de ciência. De religião, então, nem se discute.
P – Padre Donizetti era um homem estudioso?
Sebas – Ele tinha uma vasta biblioteca. Era estudioso. O argumento dele era insofismável. Era imbatível. Ele sabia o que dizia e como falava. Isso demonstrava que ele conhecia profundamente o assunto. Ele falava vulgarmente numa conversinha de esquina, ele era um Padre que girava pela cidade. Agora se você fosse à casa dele e conversasse sobre Beethoven, sobre Bach, sobre qualquer músico famoso, ele entendia. Se falasse sobre Einstein, sobre Darwin, ele entendia. Ele era um homem que lia jornais. Estava sempre atualizado com problemas políticos e sociais. Naquela época Tambaú era geograficamente pequenino, esquecido em um canto do Estado. Hoje nós temos uma ligação fácil com São Paulo. Naquele tempo não. Era difícil sair de Tambaú. Então constituíamos aqui uma comunidade um pouco isolada. Então talvez daí, penso eu, a influência maior e a necessidade da presença dele aqui para resolver todos esses problemas políticos locais.
P – Ele se envolvia na política local, na política partidária?
Sebas – Não. Ele era amigo de todo mundo. Se ele era amigo do lixeiro negro, era amigo do prefeito branco e rico. Eu fui vereador em Tambaú na época da romaria. Eu não sou político. Fui apenas por circunstância da época. Tanto que nunca mais votei. Não gosto de política. Ele era amável ao atender as pessoas. Então se os políticos o procuravam ele recebia bem. Se fosse um “Zé-Ninguém”, também ele recebia bem. No relacionamento dele com políticos, se houvesse algum interesse “oculto”, ele poderia estar visando algum donativo. Quem não se aproxima ainda hoje, de políticos, visando um donativo para casa de saúde, para asilo? Como não tinha quem fizesse isso, essa era também uma função dele. Conseguir qualquer coisa para o asilo que ele tinha. Ele distribuía pilhas de cobertor para várias famílias. Isso eu vi mais de uma vez.
P – É verdade que ele teria dado apoio explícito ao Pedro Geraldo Costa quando se candidatou a vereador em São Paulo, através dos romeiros?
Sebas – Ignoro. Eu nunca me aproximei muito do movimento ocorrido em Tambaú, nessa época de romarias. Eu fiquei afastado, observando de longe. Vi fotografias dele ao lado de Pedro Geraldo Costa. Mas ele tirava fotografia com todo mundo. Não era assim uma foto de pose. Os fotógrafos estavam ali, na porta da casa dele, tirando fotografias a toda hora. Ignoro que haja dito publicamente para que os romeiros votassem em Pedro Geraldo Costa. Se eu soubesse eu diria. Sei que durante muito tempo houve romaria organizada pelo Pedro Geraldo Costa. Não só como vereador, até como deputado mesmo, ele se valeu do nome do Padre Donizetti para conseguir sua eleição. Mas a resposta à sua pergunta eu não posso dar. Eu me afastei do Padre Donizetti durante as romarias, mesmo porque ele se isolou, ou melhor, isolaram-no dentro da Casa Paroquial.
P – Eu queria de fazer uma pergunta que não fiz aos outros? O senhor deve ter uma visão da igreja de como era antigamente e essa fase de transição para o modo de pensar de hoje, da igreja...
Sebas – Obrigado por o senhor pensar que eu saiba. Sou apenas um observador, sem nenhum compromisso.
P – A pergunta é a seguinte: se o Padre Donizetti vivesse hoje, ele seria um padre moderno. Ele seguiria as orientações da CNBB?
Sebas – Se ele fosse um padre nascido na época atual, orientado de forma diferente, numa escola diferente, numa sociedade diferente, ele seria diferente. Mas ele viveu numa época bastante tradicional. Acho que a igreja é sempre a mesma, os homens é que vão modificando o aspecto exterior. Agora o interior, a parte intrínseca da igreja, ela será eterna. O colorido que é dado à religião moderna é passageiro e tudo isso vai mudar outra vez. É questão de tempo. Se o senhor quiser colocar o Padre Donizetti tradicional, o velho sacerdote, o senhor Vigário, daquela outra época, no mundo de hoje, ele estaria tão desarvorado quanto qualquer pai, qualquer avô, que está passando por uma transição. Agora, com a inteligência que ele tinha, com a bagagem hereditária que ele trouxe, de família, forjada nessa nova concepção da igreja, ele seria uma padre sensacional. Ele iria imprimir ao sacerdócio dele um ritmo, uma projeção que de qualquer maneira ele iria aparecer com destaque. Se você pegar, por exemplo, um político de quarenta anos passados ele tinha um comportamento diferente do de hoje. Ele impunha o voto, comprava o voto. Tinha o curral eleitoral. Hoje nenhum político faz mais isso. É de outra forma, colocam mulheres bonitas sorrindo, televisão. Mudou o sistema. O personagem deve ser estudado dentro do período histórico em que ele viveu. Por que outros padres não fizeram o que ele fez? Justamente porque ele era diferente. E viveu aqui, num lugar pequeno. Eu via Padre Donizetti agindo aqui em Tambaú e achava extraordinário. Tanto que sou um admirador dele incondicional. Agora, se o senhor me perguntar o aspecto místico de tudo o que ocorreu, eu me abstenho em dizer. Não porque não creia, mas porque não tenho autoridade para isso. Apenas a observação de um fato, de um fenômeno, não é prova, é apenas uma opinião.
P – O senhor acha exagerado supervalorizar os milagres?
Sebas – Tudo o que exagerado eu acho que é errado. Eu acho que não deve ser supervalorizado, porque isso imprime um aspecto exagerado. Quem somos nós para analisar um fenômeno transcendental. É preciso gente que entenda, que hajam medidos, teólogos, enfim, discutir o assunto sob todos os aspectos, científicos e teologicamente para saber se aquilo é realmente um milagre ou um fenômeno comum. Agora a nós, ignorantes e leigos, observando de longe, não podemos dizer se é ou não um milagre. O fato ocorreu? Se for o caso de repórter, a coisa muda de figura. O fato aconteceu. Agora se ele é vem de origens místicas ou não, não é o caso da reportagem. O senhor quer um exemplo? Eu não posso dar o nome, mas posso dar a origem: Piracicaba, posto de gasolina da agronomia. Eu parei o carro, no ano passado e o moço que estava colocando gasolina ficava olhando na chapa do carro. Ele disse: “eu estou vendo a chapa de Tambaú e lá me aconteceu uma coisa”. Ai veio o irmão dele e o pai. Ele me contou que ainda era pequeno no tempo da romaria e tinha uma dor de cabeça muito grande sem saber explicar. Os médicos não deram jeito. E a família estava aflita sem saber a solução. Vieram até Tambaú com o menino, receberam uma benção do Padre e voltaram para Piracicaba. No dia seguinte, disse o rapaz, que ele acordou bem, mas a cama dele estava alagada de sangue. Aí o pai continuou a história, dizendo que de fato a cama estava toda ensanguentada, até o travesseiro, ensopado de sangue. Foi uma hemorragia, constatada por um médico. Mas a criança não se lembrava de nada, nem acordou com nada. Suponho eu que a hemorragia teria sido pelo ouvido ou pelo nariz, porque se fosse pela boca teria engasgado. Daí para frente o rapazinho nunca teve mais nada. E vou lhe dar mais uma informação: em Piracicaba tem um professor de sociologia, chamado João Chiarini. Ele disse que esteve aqui em Tambaú. Era um estudioso, cético e esteve aqui trazido pela curiosidade do movimento. Ele trouxe gravador e entrevistou pessoas durante a romaria. Disse-me ele que tem um arquivo sobre o Padre Donizetti e os acontecimentos aqui de Tambaú, gravados e escritos. Ele se ofereceu para vir à Tambaú fazer uma palestra. Falei com algumas pessoas aqui e não se interessaram. E para trazer um homem desses aqui e ser um fracasso, melhor não convidar.
P – Alguns dizem que o Padre Donizetti era às vezes um pouco violento...
Sebas – Eu diria que ele tinha um temperamento forte. Não era alguém que ficasse alheio, que fugisse, que se eximisse, que se afastasse de situações. Ele enfrentava qualquer problema que surgisse. O agressivo é aquele que ofende. Ele não ofendia. Posso dar um exemplo? Aconteceu comigo e eu lembro isso hoje com muita saudade. Houve uma manhã na Casa Paroquial, eu fui convidado e estava lá. Um irmão do Padre Donizetti, Mozart, era mais baixo e mais velho que Padre Donizetti. E ficou conversando comigo. E no meio daquele mundo de gente, o Padre começou a falar com aquele povo lá fora. Eu e o irmão dele estávamos conversando baixinho. Imediatamente o Padre se virou para nós e disse: “O Padre está falando, tenham educação, calem a boca”. Ele estava certo. Se ele estava falando, não tinha nada que ficarmos conversando no fundo da sala. Eu notava isso nele. Essa reação repentina. Mas pessoalmente não houve nunca nenhum atrito com ele. Conversei muitas vezes com ele, muitos assuntos e ele nunca ergueu a voz comigo para chamar a atenção ou para me repreender. Um dia ele chegou e me convidou para trabalhar com ele na Casa Paroquial, para organizar os arquivos, papéis. E eu respondi, que havia ficado honradíssimo, mas disse que não iria. Ele perguntou por que? E eu disse que pedia desculpas e licença para não responder o porque. Eu não queria ser envolvido pelo que ocorria dentro da casa paroquial. Ele me olhou atentamente, era um pouco mais alto que eu, e disse: “Está bem, está bem. Eu conheço você”.
domingo, 1 de novembro de 2009
Vozes do Passado - Custódio Rezende
“As canções em nossa memória vão ficar. Profundas raízes vão crescer. A luz das pessoas me faz crer”.
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Continuando a série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo uma entrevista realizada em 22 de Julho de 1979 com Custódio Ribeiro de Rezende, amigo pessoal e motorista do vigário.
Custódio ficou conhecido principalmente por seu trabalho com sucata, durante tantos anos. Nasceu em 25 de Março de 1933 e faleceu em 03 de Fevereiro de 1994.
Bem vindos mais uma vez ao trem da história.
Entrevista com Custódio Ribeiro de Rezende
Pergunta – O senhor foi motorista do Padre Donizetti durante quanto tempo?
Custódio – Durante quatro anos.
P – O que o senhor lembra de interessante na vida do Padre Donizetti?
Custódio – Muitos milagres. Diversos milagres que eu vi.
P – Sobre a pessoa dele, o que mais que o senhor lembra?
Custódio – Ele era bom. E ele era enérgico. Gostava das coisas certas, direitas.
P – Ele fez coisas pelos pobres?
Custódio – O que ele ganhava ele distribuía para os pobres. No aniversário dele, dia 3 de Janeiro, ele dava mercadoria, roupa, agasalho, tudo para os pobres. Ele ia ao armazém e fazia despesa de um mês para famílias que precisavam.
P – Ele tinha problemas com fazendeiros?
Custódio – Não tinha, não. Ele ganhava muitas coisas dos fazendeiros: arroz, criação. Não só dos fazendeiros daqui, como os de fora.
P – Ele gostava dos ricos e dos pobres?
Custódio – Ele não tinha distinção. Ele tratava bem todo mundo.
P – Alguém falava mal dele?
Custódio – Nunca ouvi ninguém falar mal dele.
P – Você sabe por que ele saiu lá de Vargem Grande?
Custódio – Ele contou pra mim essa história. Disse que tinha uns fazendeiros de lá, porque ele era muito do lado dos pobres, que achavam que ele era comunista. Ele contou esse fato de quando era vigário lá. Um fazendeiro, um tal de Fontão, fingiu que um homem tava doente e mandou chamar o padre. E os capangas dele foram chamar o padre Donizetti. Chegando na casa dele, disseram que era pra ele ver o homem doente para ir dar extrema-unção. E Padre Donizetti disse aos capangas que já era tarde, pois o homem doente já estava morto. E foi o que aconteceu. Tentaram fazer mal para o padre Donizetti. E aí depois veio o castigo do fazendeiro. Esse Fontão, de Vargem Grande, perdeu quase tudo e ficou doente, muito doente, mas não morria. Ele tinha três fazendas e ficou com uma. Nessa época Padre Donizetti já era vigário aqui em Tambaú. Aí veio o recado que era para o padre ir lá dar o perdão para o homem antes dele morrer. Aí ele não foi. Um dia veio o vigário de Vargem Grande aqui e disse: “Padre Donizetti, eu fiquei triste porque soube que você foi na minha cidade, visitar o Fontão, viram o senhor entrar lá, ficar em volta da cabeceira da cama e dar o perdão a ele, antes de morrer. Eu fiquei sentido porque o senhor não chegou até minha casa”. O que aconteceu foi que, ao mesmo tempo da reza daqui, Padre Donizetti estava lá dando perdão para o fazendeiro. Ele tinha esse poder da bi-locação.
P – E o que o Padre Donizetti respondeu para o padre de lá?
Custódio – Ele deu aquela risada gostosa e disse: “Eu não fui lá, não, padre”. Mas ele foi sim, viram ele lá na cabeceira da cama do homem que tava ruim. Ele deu perdão para o homem e o homem morreu.
P – E o que o Padre Donizetti falava sobre os milagres?
Custódio – Ele falava que quem fazia os milagres era Deus. “Eu peço pra Nossa Senhora e ela pede para Deus. Quem faz é Deus”.
P – Ele ficava orgulhoso desses milagres?
Custódio – Ele só queria fazer o bem. Fazer caridade. Vinha gente passando mal. Ele dava a benção e essas pessoas saravam na hora.
P – O senhor chegou a ver milagres?
Custódio – Eu vi diversos. Paralíticos deixavam muletas, cadeiras de rodas e saiam andando. Até agora tem tido milagres por intermédio dele.
P – O senhor acredita que o Padre Donizetti é um santo?
Custódio – Eu acredito que ele seja um santo mesmo. Pelo que ele fez em vida. Dias antes de morrer ele falou: “Agora Custódio é tempo de eu me despedir deste mundo. Nossa Senhora é minha intercessora, eu peço a ela e ela pede a Deus. Depois que eu me despedir deste mundo, vou pedir diretamente para Deus e todos que pedirem em meu nome serão atendidos”. No dia da morte dele, lá na igreja, teve uma pessoa que deixou a muleta do lado do caixão dele.
P – Como ele tratava as pessoas?
Custódio – Ele tratava todo mundo bem. Os romeiros, as pessoas daqui mesmo. Ele atendia sem distinção. Para ele não tinha nem qualidade, nem cor, rico, pobre, ele tratava bem todo mundo.
P – Ele teve problemas com políticos da cidade?
Custódio – Ele falou pra mim de uns casos que teve quando ele veio para Tambaú. Ele contou que foi taxado como comunista aqui também. Os que foram contra ele aqui foram todos castigados. Ele mesmo falou pra mim. Ele contou do caso de quando ele veio e foi processado como comunista. Ele perdeu aqui no fórum de Casa Branca e os papéis foram para o Rio de Janeiro. Um padre de lá, amigo dele, ofereceu advogado para ele se defender. Ele disse que o advogado dele era Deus. Quando chegou no dia do julgamento, os papéis do processo desapareceram. Ai não deu em nada.
P – O senhor conheceu algum parente do Padre Donizetti?
Custódio – Conheci irmãos deles, o senhor Mozart, que morava em Pinheiros, em São Paulo. A cunhada dele, que morava em Monte Santos de Minas. O sobrinho, Dr. Chopin.
P – O que o povo de Tambaú pensa hoje do Padre Donizetti?
Custódio – Acho que a fé dele vai sempre aumentar. Semana toda tem romeiros que vem procurar a cura. Tem tido milagres no túmulo dele.
P – Tem muita gente ganhando dinheiro à custa do Padre Donizetti?
Custódio – Isso tem. Procuram explorar isso. Em todo lugar tem isso, como em Aparecida do Norte. As pessoas procuram ganhar o pão.
P – No tempo que o senhor foi motorista dele, o senhor era registrado?
Custódio – Registrado não. Quando ele comprou um carro, eu deixei de viajar e vim morar e trabalhar com ele. Ele era meu padrinho de crisma. Cuidei dele. Morei com ele durante uns quatro anos.
P – Que carro pertencia a ele?
Custódio – Era um Impala.
P – Ele viajava muito?
Custódio – Íamos sempre a São Paulo, na casa do irmão; em Minas, na casa da cunhada, em Franca. Ele viajava sempre para Ribeirão, para fazer comprar no mercado, para o asilo. O dinheiro, o pessoal dava para ele. Muitos donativos. Do mundo todo. Uma vez vieram vinte portugueses que alcançaram uma graça lá em Portugal e vieram agradecê-lo. Os milagres estão todos registrados em cartas, muletas, aparelhos, óculos.
P – Quantos anos o senhor tem? É casado?
Custódio – Tenho quarenta e cinco. Sou casado e tenho um menino.
domingo, 11 de outubro de 2009
80 Anos do Incêndio na Matriz
Nos arquivos deste Blog, sob o título "Aquela Sexta-Feira de 1929", é possível conhecer a verdadeira história do incêndio, retratado em dois jornais da cidade ("O Tambahú" e "A Ordem"), publicados dois dias após ter ocorrido o fato e no livro tombo da paróquia, escrito pelo próprio Padre Donizetti Tavares de Lima.
Entre as surpreendentes revelações do artigo, está o fato de que uma segunda imagem - a do padoreiro Santo Antônio - também foi salva do incêndio.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Vozes do Passado - Irmãs Sandoval
“Quem sonhou só vale se já sonhou demais. Vertente de muitas gerações. Gravado em nossos corações, um nome se escreve fundo”.
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Continuando nossa série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo aqui uma entrevista realizada em 21 de Julho de 1979 que mais parece um bate-papo, igual a tantos que presenciei, sendo vizinho desde que nasci, desta família que fez parte da história de Tambaú: as irmãs Parreira Sandoval.
Filhos de Osmundo Sandoval e Maria das Dores Parreira, a família era formada por Maria, Vera (foto), Constança, Ruth, Inês, Julieta, Maria Angélica e Sérgio. Infelizmente todos já são falecidos.
Nesta gravação aparecem as vozes de Maria e de Vera (das três, a última a falecer, em 2007, aos 90 anos). Constança também estava presente, mas como era de seu hábito, quase não falou.
Bem vindos novamente ao trem da história.
Entrevista com Irmãs Parreira Sandoval
Maria – Calmo, tranquilo? Ele era bravo. Eu tenho a impressão que é por isso que ele se “caricaturizava” um pouco.
Vera – Era como um santo gaiato que colocava o chapéu de lado. Cheguei na casa dele um dia. Ele usava o barrete de lado. Eu perguntei: “Padre Donizetti, o que é isso? Hoje o senhor está dando uma de santo?”. Ele deu uma risada e respondeu: “Ué minha filha, por que você está pensando assim?”. Eu disse: “Porque faz uns três ou quatro dias que eu li a vida desse santo”.
P – Por que ele saiu de Vargem Grande?
Maria – Eu acho que ele saiu de lá porque o Padre Donizetti tinha a cultura muito avançada, muito pra frente, com muito saber. E aquele tempo havia aquele negócio de coronelismo. Por exemplo: uma moça ia trabalhar na casa de uma família rica, aí o moço da casa abusava da moça, não casava com ela e dava um dinheiro. E Padre Donizetti achava que todas as pessoas deveriam ser respeitadas, que tinham que ter respeito pela dignidade humana. Ele foi tachado de comunista porque dizia que o homem não tem classificação social. Não aceitava que um fosse chique, outro fosse do segundo time, outro ignorante. É um ser humano que merece respeito. Ele fazia essas coisas em Vargem Grande. Diziam que ele era comunista porque não gostava dos ricos.
P – Ele não gostava dos ricos?
Maria – Gostava. Ele gostava de todo mundo. Ele gostava de gente correta.
P – Mas os maiores inimigos dele...
Maria – ...eram os ricos.
P – Mas o que ele falava diretamente com os ricos?
Maria – Ele queria justiça social. Que os patrões pagassem seus empregados. Que os patrões respeitassem a figura dos seus empregados. Que as autoridades, dirigentes do povo, servissem ao povo e não o povo servisse às autoridades.
P – Ele fala isso no púlpito?
Maria – Ele falava. E falava isso aqui em Tambaú.
Vera – Falava de direitos humanos.
P – Ele falava de direitos humanos?
Maria – Falava. Estou dizendo que ele era um homem pra frente. Nós sabemos disso há tantos anos. O que se fala hoje, ele já conversava conosco. Ele chegou a Tambaú em um dia e no outro tirou os nomes dos bancos da igreja. As igrejas tinham os bancos com o nome das famílias. Os bancos eram reservados. E o povo que ele amava – porque o Padre Donizetti amava o povo, amava gente – ficava de pé. Ele ensinou que o pobre é outro Cristo, que nosso irmão é outro Cristo vivo. Quando nós chegamos para rezar ele disse: aqui na casa do Pai todos são iguais. Aqui não tem mais banco escrito com nome de família de ninguém. Então havia o choque. Ele tinha coragem. Ele nunca teve medo.
P – É verdade que ele fechou a porta da igreja uma vez, depois do sermão, para um grupo que sempre saía durante a pregação?
Maria – Não, não é verdade. Ele não fechou, não. Eu cantava no coro. Toda vida eu fui lá de dentro da igreja. Era assim: tinha o cinema que soltava três foguetes para começar o filme. Então era hora da reza e as moças “Filhas de Maria”, muita bonitas, todas consideradas de elite, ficavam lá na frente. Soltava o primeiro foguete do cinema, elas se levantavam, iam na frente do Santíssimo já exposto, faziam sua oração e saíam. Quando acontecia isso ele gritava, olhava para trás e dizia: “não voltem mais. Aqui não é lugar de vistas repartidas, se querem ir ao cinema vão ao cinema. Se vieram à igreja estão proibidas de se levantarem, de saírem durante a reza, para ir para o cinema”. Ele falava isso pra gente e a gente considerava importante.
Ele nunca teve medo e não fazia diferença. Um dia chegou a mulher do delegado, toda despida para ir à igreja, ai o coroinha falou: “A senhora não pode entrar aqui. Tambaú não tem capela do Santíssimo. O Santíssimo fica aqui no corpo da igreja”. Aí ela disse assim: “Eu vou entrar”. Padre Donizetti veio lá de dentro: “Não entra, não. De jeito nenhum, meu rebanho não entra, a senhora também não entra. A senhora é ovelha nova aqui, tem que obedecer. A senhora vai se compor, colocar uma echarpe e depois volta”. Ele tinha atitudes assim. Ele não tinha medo. Fosse com quem fosse.
No entanto ele era procurado por tudo quanto era gente importante deste Brasil. Por sua cultura, inteligência, capacidade. Eu me enfezo quando vejo Padre Donizetti em medalhinha, aquela exploração lá em cima. Vendendo santo. Padre Donizetti não precisa disso gente. Padre Donizetti nasceu santo e morreu santo. E ele sempre falava assim pra gente: “Cuidado com o santo burro. Maria, o pior santo é o santo burro. Ele é santo, mas ele não sabe por que não tem inteligência. Então Deus dá para quem ele quer. E ele, coitado, não sabe usar. Então cuidado com o santo burro, com santo de última hora” (...) Todo sacerdote queria conhecer a vida do Padre Donizetti. Ele dizia que iria morrer com o batinão dele. E morreu com o batinão dele.
Vera – Ele achava que a batina era a farda do sacerdote.
Maria – O distinguia. Padre Donizetti foi o homem mais extraordinário.
Vera – E não sou saudosista, não.
Maria – Também não sou saudosista. Eu acho que o Padre Edson é um bom sacerdote.
Vera – Quando eu estava na escola ele falava sobre socialismo. Isso há quarenta anos atrás. Ele preconizava. Não é que ele estava prevendo. Ele era inteligente. Ele via.
Maria – Há quarenta anos ele fazia reunião conosco, “filhas de Maria” e explicava: “O feto dentro da mãe grava impressões exteriores. As moças que vão se casar tomem cuidado. Tem que levar uma vida correta, normal”. E ele explicava direitinho. Esses cursos de casamento que dão aí, ele dava para a gente em geral, para todas as “filhas de Maria”. Quem casasse, casasse. Quem não casasse, também ficava sabem como o mundo é.
P – Ele mesmo dava aulas?
Maria – Ele dava aulas pra gente. Catecismo. Ele ensinava direitinho. Ele classificava os pecados. Ele era engraçado. Ele falava para crianças: “Você pega um giz e rabisca a parede do vizinho. O vizinho tem que gastar tinta pra pintar a parede. Isso está incluído no roubo. Não é só ladrão o que abre a gaveta do outro e pega o dinheiro. O que risca, o que escreve, o que fala, o que destrói, o que desmoraliza é ladrão da honra, do dinheiro e da propriedade”. Hoje tem esse negócio de psicologia. Nós estamos cansadas de saber disso aí. O povo de Tambaú teve muito ensinamento. Nós não éramos bobas, não. Nunca fomos. Vinha sempre o monsenhor Henrique Magalhães, um grande orador. Ele vinha muito aqui fazer conferência para nós, para os marianos. Ele tinha 1.200 marianos com ele.
Vera – Eles falam agora de sindicato dos operários. O Padre Donizetti já tinha.
Maria – Ele já tinha o Sindicato. Isso não é novidade para nós. Eu vejo a “Família Cristã”, vejo tudo isso e digo: “Padre Donizetti era inteligente mesmo”.
Eles tentaram matar o Padre Donizetti em Vargem Grande vezes sem conta. Aqui também. Eu sei o que aconteceu que eles falavam que os ricos não gostavam dele. Tinha uma ala da minha gente que fez isso. Uma ala dos Fontão, que brigava com o Padre Donizetti. Era duríssimo, porque ele queria mandar e desmandar. Ele sempre foi correto, ele sempre foi bom, ele sempre foi educado. Ele sempre foi santo.
P – Quanto aos milagres. O que vocês acham?
Maria – Eu acompanhei um. Aconteceu uma coisa comigo. Quando eu estava na igreja, onde eu cantava ou ensaiava, às vezes doía o dente das meninas, doía a cabeça. E as meninas falavam para o Padre dar a benção e sarava. Mas eu falava que ele podia me dar a benção, mas que é para arranjar um Melhoral também. Ele me dava o remédio e passava. Um dia, antes de começar aquele negócio de bênçãos, eu fiquei um uma conjuntivite virulenta. Então tinha pus, inflamação. Eu saí de casa e fui ao Padre Donizetti pedir uma benção. Cheguei lá e ele estava no sofá. Ele disse: “Muito bem, então a senhora sumiu daqui e agora resolveu voltar!”. Eu pedi a benção e ele disse para eu me ajoelhar. Ajoelhei-me e ele colocou o dedo no meu olho e deu essa benção. Ela é linda, né? Ele acabou de dar a benção e depois começou a conversar de política e quando acabamos de conversar eu me levantei e fui embora. Quando passei pelo porta-chapéus da casa dele eu olhei no espelho e depois sai. Cheguei em casa e não tinha mais nada no olho. E depois teve o milagre da minha sobrinha, Rita.
Vera – Na época das bênçãos foram falar para ele que nós não acreditávamos nos milagres. Ele ficou bravo e mandou nos chamar. Eu disse: “Senhor Vigário, o senhor está bravo com a gente?” Aí uma delas falou: “Elas não acreditam”. Eu disse: Senhor Vigário, nós estamos agindo como o senhor sempre ensinou. “Cuidado com os falsos profetas. E agora, Padre Donizetti, nós vamos acreditar no que o senhor pregou ou no que estamos vendo agora?”. Ele me abraçou e disse: “continue acreditando no que a igreja ensina”.
Maria – “Fique sempre com o bom senso da igreja”. Eu falei para ele: “Padre Donizetti, eu nunca disse que não acredito nos seus milagres. Primeiro que aqui fica tanta gente que a gente não entra. Não chega. E eu fico lá em casa recebendo tanta gente que vem”. Ele sempre ensinou na igreja que há três fatores para esses pretensos milagres: o clima, a água e o sistema nervoso. Agora a parapsicologia está explicando isso, mas naquele tempo ninguém sabia disso. “O senhor ensinava as coisas para gente e agora fica bravo”. Mas nessa altura ele já estava doente, com má circulação.
Vera – Um dia ele mandou me chamar: “Vera, eu preciso te contar”. Ele era muito engraçado. E era muito amigo do meu pai. Ele disse que encontrou com meu pai e disse que não estava enxergando muito bem. Ai meu pai emprestou um par de óculos para ele. Ele pegou e disse que estava ótimo. Disse que tinha sentido uma tontura depois de rezar a missa e o Doutor Zezinho disse para ele que podia ser da vista. Aí ele foi numa ótica em São José do Rio Pardo e disseram que aqueles óculos não serviam pra ele. E ele disse: “Não servem mesmo, não são meus”. Ele ficou quatro anos usando os óculos do meu pai.
Maria – Quando Padre Donizetti ia fazer a prática, ele começava a falar que amava Nossa Senhora. Eu já vi alguém amar alguém, mas como Padre Donizetti amava Nossa Senhora eu nunca vi. Era a invocação dele: “Virgem Mãe de Deus”. Ele começava a falar em Nossa Senhora e se entusiasmava. Tinha aqueles punhos engomados e ele arrancava os punhos e jogava lá no meio da igreja. Às vezes voavam, às vezes ele tirava aquilo, porque aquilo incomodava. Ele achava, como sacerdote, apesar de discordar, que a igreja devia estar sempre com romeiros. Era no tempo de Washington Luis e depois dele, Getúlio Vargas.
Vera – Um dia ele estava falando de Washington Luis no púlpito e tinha um menino, mocinho hoje, que é dono de cartório, o Mauro Caprioli e, quando o Padre estava falando do governo, ele levantou, olhou bem para o Padre e gritou: “Viva o Getúlio Vargas”. E o Padre respondeu: “Mas que coisa, hein! Em Tambaú até criança fala de política dentro da igreja”. Quando chegou no tempo da revolução ele contornou bem a situação, não houve arrelia. Ele tinha pulso.
P – Que revolução?
Vera – De 32.
Maria – Sabe quem esteve à Tambaú como médico das tropas regulares lá de Minas? Juscelino Kubitscheck. E Padre Donizetti logo entrosou com ele.
Aqui em Tambaú, nas fábricas, havia corredores e ali tinha escorpião, lacraia, aranha, cobra. Tinha muita cobra. Então o operário era mordido, picado e morria sem assistência. Até chamavam Padre Donizetti de “O Sacerdote das Cobras”. Porque ele ia para o alto falante, tocava a marcha do soldado lá no Aimone, porque ele tocava muito bem. Chamava a atenção da população e pedia que caçasse cobras, escorpiões, para mandar para o Butantã para vir de volta o soro. Na casa dele, tinha umas mesas cheias de jornais de revistas. E tinha umas compoteiras em cima, junto com as caixas das cobras. Às vezes chegava alguém pedindo esmola e ele pedia para a gente procurar por ali e o que achasse era para dar. Fossem cinquenta mil réis, cem mil réis, naquele tempo era bastante dinheiro. As pessoas iam lá e deixavam para ele. Ele falava: “Pode dar isso”. A gente ia abrir a compoteira e olha as cobras lá em cima, dentro da compoteira. As cobras fugiam da casa dele e iam para os vizinhos. Ali no Mário, diz que um dia a dona Josefina chegou na sala e tinha um rolo de cobra lá. E ele ria. Ele conseguiu salvar a vida dos operários com esse trabalho com o Butantã. E todo mundo caçava cobra. O interesse era geral. Agora já tem o soro antiofídico. Mas naquele tempo não tinha. Chegou ao ponto de morrer operário porque não tinha o soro. Isso ele conseguiu aqui em Tambaú. E esse negócio de guardar cobra na compoteira é porque não tinha mais onde por. Eu mesma fui abrir uma compoteira com a cobra lá dentro e sai pulando, porque dá medo, né? Elas fugiam pelo jardim, se penduravam nas árvores.
P – Ele defendia muito o direito dos empregados?
Maria – Defendia. E ele foi chamado de comunista por isso. Quem acusou ele de comunista? As pessoas que tinham posse, as que exploravam o trabalho humano, as que não davam condições de vida.
P – Tem alguém que está vivo hoje e que na época teve algum atrito com o Padre Donizetti?
Maria – Padre Donizetti teve atrito com quase todo mundo que era meio fortão. Eram grupos políticos e nisso eles se afinavam. Tanto de um lado quanto do outro, ficavam com raiva do Padre Donizetti. Porque ele não tinha medo. Ele gritava mesmo. Ele formava essa sociedade dos operários. Ele defendia os operários. Ele gritava pelo salário, pela justiça, que pagassem direito, que não explorassem o trabalho dos operários, que o operário tinha o tempo do trabalho do patrão e o tempo para a família dele. Que o patrão tinha que pagar decentemente o operário para sobrar tempo para ele se dedicar à família, para educar os filhos, para orientar, conversar com o filho.
Porque eles pagavam aqui em Tambaú com o vale ou senão assinavam a folha em branco. Eu vi muito isso, porque eu trabalhei trinta anos no Posto de Saúde, de puericultura. E lá em via. Eu tinha ficha social, ia nas casas fazer levantamento. Trabalhava com gestantes. O que o SOS faz aí eu fazia sozinha lá no posto de puericultura. Orientação do Padre Donizetti, porque a Associação de Proteção à Maternidade e Infância no fim ficou ele e a gente trabalhava de acordo.
Aí sempre teve uma ala contra o Padre Donizetti. Mas justo por isso, por causa dos direitos do ser humano. Direito de viver, de amar os seus familiares, seus amigos e ter hora de lazer. Ele arrumou uma biblioteca para o centro operário e a gente foi lá catalogar os livros, fazer fichários, para os rapazes, os operários irem ler. Ele foi mostrando aos operários que eles eram gente, não burros de carga, animais irracionais. Se houve alguma onda contra o Padre Donizetti, o senhor pode crer, foi por isso. Ele era esclarecido, era culto, era educado, era um santo sacerdote. Um bom sacerdote. Só isso. E agora eles ficam aí com essa exploração. Diz que tem um livrinho por aí que é um vexame, uma vergonha.
Entrevistador – Têm vários.
Maria – Não pode. A igreja não pode permitir uma coisa dessas. Precisa tirar. Eu já falei pra “Mariinha”.
P – E sobre uma cilada que ele teria sofrido?
Maria – Eles armaram ciladas. Tentaram desmoralizar o Padre Donizetti de todo jeito. Os antigos lá de Vargem Grande contavam que uma vez fizeram uma cilada pra ele. Não vou falar o nome da mulher porque pode ser que me falha. Eu misturo com outra e é uma acusação grave. Essa mulher disse que havia uma pessoa doente na casa dela. Ele foi com um amigo e parou na porteira, dizendo para o amigo esperar. Foi até a casa e tinha uma mulher para tentar o Padre Donizetti. Ele era bem moço. Mas ele escapou de lá. A preocupação do Padre Donizetti era de não deixar a igreja ser atingida. Ele achava que o ministério dele era uma coisa tão sagrada que não podia ser atingido. Ele preferia morrer a se deixar atingir como sacerdote.
Outra vez fizeram outra cilada. Um inimigo dele mandou chamá-lo na cidade dizendo que tinha um homem morrendo na fazenda. Ele foi, entrou na casa que estava toda iluminada e não viu ninguém. Ai veio um empregado e ele disse: “Cadê o doente”. O homem respondeu que estava no quarto. Ele entrou no quarto e tinha um homem na cama, virado para o canto. Ele chamou o homem e viu que ele tinha morrido. Quando ele chegou perto, saiu um homem de baixo da cama que era para matar ele. Isso Vargem Grande inteirinha sabe. Minha mãe também contava isso e o Padre Donizetti mesmo confirmou.
Na próxima entrevista: Custódio de Rezende.
