Paulo Rogério B. Rocco
“Quem sonhou só vale se já sonhou demais. Vertente de muitas gerações. Gravado em nossos corações, um nome se escreve fundo”.
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Continuando nossa série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo aqui uma entrevista realizada em 21 de Julho de 1979 que mais parece um bate-papo, igual a tantos que presenciei, sendo vizinho desde que nasci, desta família que fez parte da história de Tambaú: as irmãs Parreira Sandoval.
“Quem sonhou só vale se já sonhou demais. Vertente de muitas gerações. Gravado em nossos corações, um nome se escreve fundo”.
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Continuando nossa série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo aqui uma entrevista realizada em 21 de Julho de 1979 que mais parece um bate-papo, igual a tantos que presenciei, sendo vizinho desde que nasci, desta família que fez parte da história de Tambaú: as irmãs Parreira Sandoval.
Filhos de Osmundo Sandoval e Maria das Dores Parreira, a família era formada por Maria, Vera (foto), Constança, Ruth, Inês, Julieta, Maria Angélica e Sérgio. Infelizmente todos já são falecidos.
Nesta gravação aparecem as vozes de Maria e de Vera (das três, a última a falecer, em 2007, aos 90 anos). Constança também estava presente, mas como era de seu hábito, quase não falou.
Bem vindos novamente ao trem da história.
Entrevista com Irmãs Parreira Sandoval
Pergunta – Padre Donizetti era uma pessoa calma, tranquila?
Maria – Calmo, tranquilo? Ele era bravo. Eu tenho a impressão que é por isso que ele se “caricaturizava” um pouco.
Vera – Era como um santo gaiato que colocava o chapéu de lado. Cheguei na casa dele um dia. Ele usava o barrete de lado. Eu perguntei: “Padre Donizetti, o que é isso? Hoje o senhor está dando uma de santo?”. Ele deu uma risada e respondeu: “Ué minha filha, por que você está pensando assim?”. Eu disse: “Porque faz uns três ou quatro dias que eu li a vida desse santo”.
P – Por que ele saiu de Vargem Grande?
Maria – Eu acho que ele saiu de lá porque o Padre Donizetti tinha a cultura muito avançada, muito pra frente, com muito saber. E aquele tempo havia aquele negócio de coronelismo. Por exemplo: uma moça ia trabalhar na casa de uma família rica, aí o moço da casa abusava da moça, não casava com ela e dava um dinheiro. E Padre Donizetti achava que todas as pessoas deveriam ser respeitadas, que tinham que ter respeito pela dignidade humana. Ele foi tachado de comunista porque dizia que o homem não tem classificação social. Não aceitava que um fosse chique, outro fosse do segundo time, outro ignorante. É um ser humano que merece respeito. Ele fazia essas coisas em Vargem Grande. Diziam que ele era comunista porque não gostava dos ricos.
P – Ele não gostava dos ricos?
Maria – Gostava. Ele gostava de todo mundo. Ele gostava de gente correta.
P – Mas os maiores inimigos dele...
Maria – ...eram os ricos.
P – Mas o que ele falava diretamente com os ricos?
Maria – Ele queria justiça social. Que os patrões pagassem seus empregados. Que os patrões respeitassem a figura dos seus empregados. Que as autoridades, dirigentes do povo, servissem ao povo e não o povo servisse às autoridades.
P – Ele fala isso no púlpito?
Maria – Ele falava. E falava isso aqui em Tambaú.
Vera – Falava de direitos humanos.
P – Ele falava de direitos humanos?
Maria – Falava. Estou dizendo que ele era um homem pra frente. Nós sabemos disso há tantos anos. O que se fala hoje, ele já conversava conosco. Ele chegou a Tambaú em um dia e no outro tirou os nomes dos bancos da igreja. As igrejas tinham os bancos com o nome das famílias. Os bancos eram reservados. E o povo que ele amava – porque o Padre Donizetti amava o povo, amava gente – ficava de pé. Ele ensinou que o pobre é outro Cristo, que nosso irmão é outro Cristo vivo. Quando nós chegamos para rezar ele disse: aqui na casa do Pai todos são iguais. Aqui não tem mais banco escrito com nome de família de ninguém. Então havia o choque. Ele tinha coragem. Ele nunca teve medo.
P – É verdade que ele fechou a porta da igreja uma vez, depois do sermão, para um grupo que sempre saía durante a pregação?
Maria – Não, não é verdade. Ele não fechou, não. Eu cantava no coro. Toda vida eu fui lá de dentro da igreja. Era assim: tinha o cinema que soltava três foguetes para começar o filme. Então era hora da reza e as moças “Filhas de Maria”, muita bonitas, todas consideradas de elite, ficavam lá na frente. Soltava o primeiro foguete do cinema, elas se levantavam, iam na frente do Santíssimo já exposto, faziam sua oração e saíam. Quando acontecia isso ele gritava, olhava para trás e dizia: “não voltem mais. Aqui não é lugar de vistas repartidas, se querem ir ao cinema vão ao cinema. Se vieram à igreja estão proibidas de se levantarem, de saírem durante a reza, para ir para o cinema”. Ele falava isso pra gente e a gente considerava importante.
Ele nunca teve medo e não fazia diferença. Um dia chegou a mulher do delegado, toda despida para ir à igreja, ai o coroinha falou: “A senhora não pode entrar aqui. Tambaú não tem capela do Santíssimo. O Santíssimo fica aqui no corpo da igreja”. Aí ela disse assim: “Eu vou entrar”. Padre Donizetti veio lá de dentro: “Não entra, não. De jeito nenhum, meu rebanho não entra, a senhora também não entra. A senhora é ovelha nova aqui, tem que obedecer. A senhora vai se compor, colocar uma echarpe e depois volta”. Ele tinha atitudes assim. Ele não tinha medo. Fosse com quem fosse.
No entanto ele era procurado por tudo quanto era gente importante deste Brasil. Por sua cultura, inteligência, capacidade. Eu me enfezo quando vejo Padre Donizetti em medalhinha, aquela exploração lá em cima. Vendendo santo. Padre Donizetti não precisa disso gente. Padre Donizetti nasceu santo e morreu santo. E ele sempre falava assim pra gente: “Cuidado com o santo burro. Maria, o pior santo é o santo burro. Ele é santo, mas ele não sabe por que não tem inteligência. Então Deus dá para quem ele quer. E ele, coitado, não sabe usar. Então cuidado com o santo burro, com santo de última hora” (...) Todo sacerdote queria conhecer a vida do Padre Donizetti. Ele dizia que iria morrer com o batinão dele. E morreu com o batinão dele.
Vera – Ele achava que a batina era a farda do sacerdote.
Maria – O distinguia. Padre Donizetti foi o homem mais extraordinário.
Vera – E não sou saudosista, não.
Maria – Também não sou saudosista. Eu acho que o Padre Edson é um bom sacerdote.
Vera – Quando eu estava na escola ele falava sobre socialismo. Isso há quarenta anos atrás. Ele preconizava. Não é que ele estava prevendo. Ele era inteligente. Ele via.
Maria – Há quarenta anos ele fazia reunião conosco, “filhas de Maria” e explicava: “O feto dentro da mãe grava impressões exteriores. As moças que vão se casar tomem cuidado. Tem que levar uma vida correta, normal”. E ele explicava direitinho. Esses cursos de casamento que dão aí, ele dava para a gente em geral, para todas as “filhas de Maria”. Quem casasse, casasse. Quem não casasse, também ficava sabem como o mundo é.
P – Ele mesmo dava aulas?
Maria – Ele dava aulas pra gente. Catecismo. Ele ensinava direitinho. Ele classificava os pecados. Ele era engraçado. Ele falava para crianças: “Você pega um giz e rabisca a parede do vizinho. O vizinho tem que gastar tinta pra pintar a parede. Isso está incluído no roubo. Não é só ladrão o que abre a gaveta do outro e pega o dinheiro. O que risca, o que escreve, o que fala, o que destrói, o que desmoraliza é ladrão da honra, do dinheiro e da propriedade”. Hoje tem esse negócio de psicologia. Nós estamos cansadas de saber disso aí. O povo de Tambaú teve muito ensinamento. Nós não éramos bobas, não. Nunca fomos. Vinha sempre o monsenhor Henrique Magalhães, um grande orador. Ele vinha muito aqui fazer conferência para nós, para os marianos. Ele tinha 1.200 marianos com ele.
Vera – Eles falam agora de sindicato dos operários. O Padre Donizetti já tinha.
Maria – Ele já tinha o Sindicato. Isso não é novidade para nós. Eu vejo a “Família Cristã”, vejo tudo isso e digo: “Padre Donizetti era inteligente mesmo”.
Eles tentaram matar o Padre Donizetti em Vargem Grande vezes sem conta. Aqui também. Eu sei o que aconteceu que eles falavam que os ricos não gostavam dele. Tinha uma ala da minha gente que fez isso. Uma ala dos Fontão, que brigava com o Padre Donizetti. Era duríssimo, porque ele queria mandar e desmandar. Ele sempre foi correto, ele sempre foi bom, ele sempre foi educado. Ele sempre foi santo.
P – Quanto aos milagres. O que vocês acham?
Maria – Eu acompanhei um. Aconteceu uma coisa comigo. Quando eu estava na igreja, onde eu cantava ou ensaiava, às vezes doía o dente das meninas, doía a cabeça. E as meninas falavam para o Padre dar a benção e sarava. Mas eu falava que ele podia me dar a benção, mas que é para arranjar um Melhoral também. Ele me dava o remédio e passava. Um dia, antes de começar aquele negócio de bênçãos, eu fiquei um uma conjuntivite virulenta. Então tinha pus, inflamação. Eu saí de casa e fui ao Padre Donizetti pedir uma benção. Cheguei lá e ele estava no sofá. Ele disse: “Muito bem, então a senhora sumiu daqui e agora resolveu voltar!”. Eu pedi a benção e ele disse para eu me ajoelhar. Ajoelhei-me e ele colocou o dedo no meu olho e deu essa benção. Ela é linda, né? Ele acabou de dar a benção e depois começou a conversar de política e quando acabamos de conversar eu me levantei e fui embora. Quando passei pelo porta-chapéus da casa dele eu olhei no espelho e depois sai. Cheguei em casa e não tinha mais nada no olho. E depois teve o milagre da minha sobrinha, Rita.
Vera – Na época das bênçãos foram falar para ele que nós não acreditávamos nos milagres. Ele ficou bravo e mandou nos chamar. Eu disse: “Senhor Vigário, o senhor está bravo com a gente?” Aí uma delas falou: “Elas não acreditam”. Eu disse: Senhor Vigário, nós estamos agindo como o senhor sempre ensinou. “Cuidado com os falsos profetas. E agora, Padre Donizetti, nós vamos acreditar no que o senhor pregou ou no que estamos vendo agora?”. Ele me abraçou e disse: “continue acreditando no que a igreja ensina”.
Maria – “Fique sempre com o bom senso da igreja”. Eu falei para ele: “Padre Donizetti, eu nunca disse que não acredito nos seus milagres. Primeiro que aqui fica tanta gente que a gente não entra. Não chega. E eu fico lá em casa recebendo tanta gente que vem”. Ele sempre ensinou na igreja que há três fatores para esses pretensos milagres: o clima, a água e o sistema nervoso. Agora a parapsicologia está explicando isso, mas naquele tempo ninguém sabia disso. “O senhor ensinava as coisas para gente e agora fica bravo”. Mas nessa altura ele já estava doente, com má circulação.
Vera – Um dia ele mandou me chamar: “Vera, eu preciso te contar”. Ele era muito engraçado. E era muito amigo do meu pai. Ele disse que encontrou com meu pai e disse que não estava enxergando muito bem. Ai meu pai emprestou um par de óculos para ele. Ele pegou e disse que estava ótimo. Disse que tinha sentido uma tontura depois de rezar a missa e o Doutor Zezinho disse para ele que podia ser da vista. Aí ele foi numa ótica em São José do Rio Pardo e disseram que aqueles óculos não serviam pra ele. E ele disse: “Não servem mesmo, não são meus”. Ele ficou quatro anos usando os óculos do meu pai.
Maria – Quando Padre Donizetti ia fazer a prática, ele começava a falar que amava Nossa Senhora. Eu já vi alguém amar alguém, mas como Padre Donizetti amava Nossa Senhora eu nunca vi. Era a invocação dele: “Virgem Mãe de Deus”. Ele começava a falar em Nossa Senhora e se entusiasmava. Tinha aqueles punhos engomados e ele arrancava os punhos e jogava lá no meio da igreja. Às vezes voavam, às vezes ele tirava aquilo, porque aquilo incomodava. Ele achava, como sacerdote, apesar de discordar, que a igreja devia estar sempre com romeiros. Era no tempo de Washington Luis e depois dele, Getúlio Vargas.
Vera – Um dia ele estava falando de Washington Luis no púlpito e tinha um menino, mocinho hoje, que é dono de cartório, o Mauro Caprioli e, quando o Padre estava falando do governo, ele levantou, olhou bem para o Padre e gritou: “Viva o Getúlio Vargas”. E o Padre respondeu: “Mas que coisa, hein! Em Tambaú até criança fala de política dentro da igreja”. Quando chegou no tempo da revolução ele contornou bem a situação, não houve arrelia. Ele tinha pulso.
P – Que revolução?
Vera – De 32.
Maria – Sabe quem esteve à Tambaú como médico das tropas regulares lá de Minas? Juscelino Kubitscheck. E Padre Donizetti logo entrosou com ele.
Aqui em Tambaú, nas fábricas, havia corredores e ali tinha escorpião, lacraia, aranha, cobra. Tinha muita cobra. Então o operário era mordido, picado e morria sem assistência. Até chamavam Padre Donizetti de “O Sacerdote das Cobras”. Porque ele ia para o alto falante, tocava a marcha do soldado lá no Aimone, porque ele tocava muito bem. Chamava a atenção da população e pedia que caçasse cobras, escorpiões, para mandar para o Butantã para vir de volta o soro. Na casa dele, tinha umas mesas cheias de jornais de revistas. E tinha umas compoteiras em cima, junto com as caixas das cobras. Às vezes chegava alguém pedindo esmola e ele pedia para a gente procurar por ali e o que achasse era para dar. Fossem cinquenta mil réis, cem mil réis, naquele tempo era bastante dinheiro. As pessoas iam lá e deixavam para ele. Ele falava: “Pode dar isso”. A gente ia abrir a compoteira e olha as cobras lá em cima, dentro da compoteira. As cobras fugiam da casa dele e iam para os vizinhos. Ali no Mário, diz que um dia a dona Josefina chegou na sala e tinha um rolo de cobra lá. E ele ria. Ele conseguiu salvar a vida dos operários com esse trabalho com o Butantã. E todo mundo caçava cobra. O interesse era geral. Agora já tem o soro antiofídico. Mas naquele tempo não tinha. Chegou ao ponto de morrer operário porque não tinha o soro. Isso ele conseguiu aqui em Tambaú. E esse negócio de guardar cobra na compoteira é porque não tinha mais onde por. Eu mesma fui abrir uma compoteira com a cobra lá dentro e sai pulando, porque dá medo, né? Elas fugiam pelo jardim, se penduravam nas árvores.
P – Ele defendia muito o direito dos empregados?
Maria – Defendia. E ele foi chamado de comunista por isso. Quem acusou ele de comunista? As pessoas que tinham posse, as que exploravam o trabalho humano, as que não davam condições de vida.
P – Tem alguém que está vivo hoje e que na época teve algum atrito com o Padre Donizetti?
Maria – Padre Donizetti teve atrito com quase todo mundo que era meio fortão. Eram grupos políticos e nisso eles se afinavam. Tanto de um lado quanto do outro, ficavam com raiva do Padre Donizetti. Porque ele não tinha medo. Ele gritava mesmo. Ele formava essa sociedade dos operários. Ele defendia os operários. Ele gritava pelo salário, pela justiça, que pagassem direito, que não explorassem o trabalho dos operários, que o operário tinha o tempo do trabalho do patrão e o tempo para a família dele. Que o patrão tinha que pagar decentemente o operário para sobrar tempo para ele se dedicar à família, para educar os filhos, para orientar, conversar com o filho.
Porque eles pagavam aqui em Tambaú com o vale ou senão assinavam a folha em branco. Eu vi muito isso, porque eu trabalhei trinta anos no Posto de Saúde, de puericultura. E lá em via. Eu tinha ficha social, ia nas casas fazer levantamento. Trabalhava com gestantes. O que o SOS faz aí eu fazia sozinha lá no posto de puericultura. Orientação do Padre Donizetti, porque a Associação de Proteção à Maternidade e Infância no fim ficou ele e a gente trabalhava de acordo.
Aí sempre teve uma ala contra o Padre Donizetti. Mas justo por isso, por causa dos direitos do ser humano. Direito de viver, de amar os seus familiares, seus amigos e ter hora de lazer. Ele arrumou uma biblioteca para o centro operário e a gente foi lá catalogar os livros, fazer fichários, para os rapazes, os operários irem ler. Ele foi mostrando aos operários que eles eram gente, não burros de carga, animais irracionais. Se houve alguma onda contra o Padre Donizetti, o senhor pode crer, foi por isso. Ele era esclarecido, era culto, era educado, era um santo sacerdote. Um bom sacerdote. Só isso. E agora eles ficam aí com essa exploração. Diz que tem um livrinho por aí que é um vexame, uma vergonha.
Entrevistador – Têm vários.
Maria – Não pode. A igreja não pode permitir uma coisa dessas. Precisa tirar. Eu já falei pra “Mariinha”.
P – E sobre uma cilada que ele teria sofrido?
Maria – Eles armaram ciladas. Tentaram desmoralizar o Padre Donizetti de todo jeito. Os antigos lá de Vargem Grande contavam que uma vez fizeram uma cilada pra ele. Não vou falar o nome da mulher porque pode ser que me falha. Eu misturo com outra e é uma acusação grave. Essa mulher disse que havia uma pessoa doente na casa dela. Ele foi com um amigo e parou na porteira, dizendo para o amigo esperar. Foi até a casa e tinha uma mulher para tentar o Padre Donizetti. Ele era bem moço. Mas ele escapou de lá. A preocupação do Padre Donizetti era de não deixar a igreja ser atingida. Ele achava que o ministério dele era uma coisa tão sagrada que não podia ser atingido. Ele preferia morrer a se deixar atingir como sacerdote.
Outra vez fizeram outra cilada. Um inimigo dele mandou chamá-lo na cidade dizendo que tinha um homem morrendo na fazenda. Ele foi, entrou na casa que estava toda iluminada e não viu ninguém. Ai veio um empregado e ele disse: “Cadê o doente”. O homem respondeu que estava no quarto. Ele entrou no quarto e tinha um homem na cama, virado para o canto. Ele chamou o homem e viu que ele tinha morrido. Quando ele chegou perto, saiu um homem de baixo da cama que era para matar ele. Isso Vargem Grande inteirinha sabe. Minha mãe também contava isso e o Padre Donizetti mesmo confirmou.
Na próxima entrevista: Custódio de Rezende.
Maria – Calmo, tranquilo? Ele era bravo. Eu tenho a impressão que é por isso que ele se “caricaturizava” um pouco.
Vera – Era como um santo gaiato que colocava o chapéu de lado. Cheguei na casa dele um dia. Ele usava o barrete de lado. Eu perguntei: “Padre Donizetti, o que é isso? Hoje o senhor está dando uma de santo?”. Ele deu uma risada e respondeu: “Ué minha filha, por que você está pensando assim?”. Eu disse: “Porque faz uns três ou quatro dias que eu li a vida desse santo”.
P – Por que ele saiu de Vargem Grande?
Maria – Eu acho que ele saiu de lá porque o Padre Donizetti tinha a cultura muito avançada, muito pra frente, com muito saber. E aquele tempo havia aquele negócio de coronelismo. Por exemplo: uma moça ia trabalhar na casa de uma família rica, aí o moço da casa abusava da moça, não casava com ela e dava um dinheiro. E Padre Donizetti achava que todas as pessoas deveriam ser respeitadas, que tinham que ter respeito pela dignidade humana. Ele foi tachado de comunista porque dizia que o homem não tem classificação social. Não aceitava que um fosse chique, outro fosse do segundo time, outro ignorante. É um ser humano que merece respeito. Ele fazia essas coisas em Vargem Grande. Diziam que ele era comunista porque não gostava dos ricos.
P – Ele não gostava dos ricos?
Maria – Gostava. Ele gostava de todo mundo. Ele gostava de gente correta.
P – Mas os maiores inimigos dele...
Maria – ...eram os ricos.
P – Mas o que ele falava diretamente com os ricos?
Maria – Ele queria justiça social. Que os patrões pagassem seus empregados. Que os patrões respeitassem a figura dos seus empregados. Que as autoridades, dirigentes do povo, servissem ao povo e não o povo servisse às autoridades.
P – Ele fala isso no púlpito?
Maria – Ele falava. E falava isso aqui em Tambaú.
Vera – Falava de direitos humanos.
P – Ele falava de direitos humanos?
Maria – Falava. Estou dizendo que ele era um homem pra frente. Nós sabemos disso há tantos anos. O que se fala hoje, ele já conversava conosco. Ele chegou a Tambaú em um dia e no outro tirou os nomes dos bancos da igreja. As igrejas tinham os bancos com o nome das famílias. Os bancos eram reservados. E o povo que ele amava – porque o Padre Donizetti amava o povo, amava gente – ficava de pé. Ele ensinou que o pobre é outro Cristo, que nosso irmão é outro Cristo vivo. Quando nós chegamos para rezar ele disse: aqui na casa do Pai todos são iguais. Aqui não tem mais banco escrito com nome de família de ninguém. Então havia o choque. Ele tinha coragem. Ele nunca teve medo.
P – É verdade que ele fechou a porta da igreja uma vez, depois do sermão, para um grupo que sempre saía durante a pregação?
Maria – Não, não é verdade. Ele não fechou, não. Eu cantava no coro. Toda vida eu fui lá de dentro da igreja. Era assim: tinha o cinema que soltava três foguetes para começar o filme. Então era hora da reza e as moças “Filhas de Maria”, muita bonitas, todas consideradas de elite, ficavam lá na frente. Soltava o primeiro foguete do cinema, elas se levantavam, iam na frente do Santíssimo já exposto, faziam sua oração e saíam. Quando acontecia isso ele gritava, olhava para trás e dizia: “não voltem mais. Aqui não é lugar de vistas repartidas, se querem ir ao cinema vão ao cinema. Se vieram à igreja estão proibidas de se levantarem, de saírem durante a reza, para ir para o cinema”. Ele falava isso pra gente e a gente considerava importante.
Ele nunca teve medo e não fazia diferença. Um dia chegou a mulher do delegado, toda despida para ir à igreja, ai o coroinha falou: “A senhora não pode entrar aqui. Tambaú não tem capela do Santíssimo. O Santíssimo fica aqui no corpo da igreja”. Aí ela disse assim: “Eu vou entrar”. Padre Donizetti veio lá de dentro: “Não entra, não. De jeito nenhum, meu rebanho não entra, a senhora também não entra. A senhora é ovelha nova aqui, tem que obedecer. A senhora vai se compor, colocar uma echarpe e depois volta”. Ele tinha atitudes assim. Ele não tinha medo. Fosse com quem fosse.
No entanto ele era procurado por tudo quanto era gente importante deste Brasil. Por sua cultura, inteligência, capacidade. Eu me enfezo quando vejo Padre Donizetti em medalhinha, aquela exploração lá em cima. Vendendo santo. Padre Donizetti não precisa disso gente. Padre Donizetti nasceu santo e morreu santo. E ele sempre falava assim pra gente: “Cuidado com o santo burro. Maria, o pior santo é o santo burro. Ele é santo, mas ele não sabe por que não tem inteligência. Então Deus dá para quem ele quer. E ele, coitado, não sabe usar. Então cuidado com o santo burro, com santo de última hora” (...) Todo sacerdote queria conhecer a vida do Padre Donizetti. Ele dizia que iria morrer com o batinão dele. E morreu com o batinão dele.
Vera – Ele achava que a batina era a farda do sacerdote.
Maria – O distinguia. Padre Donizetti foi o homem mais extraordinário.
Vera – E não sou saudosista, não.
Maria – Também não sou saudosista. Eu acho que o Padre Edson é um bom sacerdote.
Vera – Quando eu estava na escola ele falava sobre socialismo. Isso há quarenta anos atrás. Ele preconizava. Não é que ele estava prevendo. Ele era inteligente. Ele via.
Maria – Há quarenta anos ele fazia reunião conosco, “filhas de Maria” e explicava: “O feto dentro da mãe grava impressões exteriores. As moças que vão se casar tomem cuidado. Tem que levar uma vida correta, normal”. E ele explicava direitinho. Esses cursos de casamento que dão aí, ele dava para a gente em geral, para todas as “filhas de Maria”. Quem casasse, casasse. Quem não casasse, também ficava sabem como o mundo é.
P – Ele mesmo dava aulas?
Maria – Ele dava aulas pra gente. Catecismo. Ele ensinava direitinho. Ele classificava os pecados. Ele era engraçado. Ele falava para crianças: “Você pega um giz e rabisca a parede do vizinho. O vizinho tem que gastar tinta pra pintar a parede. Isso está incluído no roubo. Não é só ladrão o que abre a gaveta do outro e pega o dinheiro. O que risca, o que escreve, o que fala, o que destrói, o que desmoraliza é ladrão da honra, do dinheiro e da propriedade”. Hoje tem esse negócio de psicologia. Nós estamos cansadas de saber disso aí. O povo de Tambaú teve muito ensinamento. Nós não éramos bobas, não. Nunca fomos. Vinha sempre o monsenhor Henrique Magalhães, um grande orador. Ele vinha muito aqui fazer conferência para nós, para os marianos. Ele tinha 1.200 marianos com ele.
Vera – Eles falam agora de sindicato dos operários. O Padre Donizetti já tinha.
Maria – Ele já tinha o Sindicato. Isso não é novidade para nós. Eu vejo a “Família Cristã”, vejo tudo isso e digo: “Padre Donizetti era inteligente mesmo”.
Eles tentaram matar o Padre Donizetti em Vargem Grande vezes sem conta. Aqui também. Eu sei o que aconteceu que eles falavam que os ricos não gostavam dele. Tinha uma ala da minha gente que fez isso. Uma ala dos Fontão, que brigava com o Padre Donizetti. Era duríssimo, porque ele queria mandar e desmandar. Ele sempre foi correto, ele sempre foi bom, ele sempre foi educado. Ele sempre foi santo.
P – Quanto aos milagres. O que vocês acham?
Maria – Eu acompanhei um. Aconteceu uma coisa comigo. Quando eu estava na igreja, onde eu cantava ou ensaiava, às vezes doía o dente das meninas, doía a cabeça. E as meninas falavam para o Padre dar a benção e sarava. Mas eu falava que ele podia me dar a benção, mas que é para arranjar um Melhoral também. Ele me dava o remédio e passava. Um dia, antes de começar aquele negócio de bênçãos, eu fiquei um uma conjuntivite virulenta. Então tinha pus, inflamação. Eu saí de casa e fui ao Padre Donizetti pedir uma benção. Cheguei lá e ele estava no sofá. Ele disse: “Muito bem, então a senhora sumiu daqui e agora resolveu voltar!”. Eu pedi a benção e ele disse para eu me ajoelhar. Ajoelhei-me e ele colocou o dedo no meu olho e deu essa benção. Ela é linda, né? Ele acabou de dar a benção e depois começou a conversar de política e quando acabamos de conversar eu me levantei e fui embora. Quando passei pelo porta-chapéus da casa dele eu olhei no espelho e depois sai. Cheguei em casa e não tinha mais nada no olho. E depois teve o milagre da minha sobrinha, Rita.
Vera – Na época das bênçãos foram falar para ele que nós não acreditávamos nos milagres. Ele ficou bravo e mandou nos chamar. Eu disse: “Senhor Vigário, o senhor está bravo com a gente?” Aí uma delas falou: “Elas não acreditam”. Eu disse: Senhor Vigário, nós estamos agindo como o senhor sempre ensinou. “Cuidado com os falsos profetas. E agora, Padre Donizetti, nós vamos acreditar no que o senhor pregou ou no que estamos vendo agora?”. Ele me abraçou e disse: “continue acreditando no que a igreja ensina”.
Maria – “Fique sempre com o bom senso da igreja”. Eu falei para ele: “Padre Donizetti, eu nunca disse que não acredito nos seus milagres. Primeiro que aqui fica tanta gente que a gente não entra. Não chega. E eu fico lá em casa recebendo tanta gente que vem”. Ele sempre ensinou na igreja que há três fatores para esses pretensos milagres: o clima, a água e o sistema nervoso. Agora a parapsicologia está explicando isso, mas naquele tempo ninguém sabia disso. “O senhor ensinava as coisas para gente e agora fica bravo”. Mas nessa altura ele já estava doente, com má circulação.
Vera – Um dia ele mandou me chamar: “Vera, eu preciso te contar”. Ele era muito engraçado. E era muito amigo do meu pai. Ele disse que encontrou com meu pai e disse que não estava enxergando muito bem. Ai meu pai emprestou um par de óculos para ele. Ele pegou e disse que estava ótimo. Disse que tinha sentido uma tontura depois de rezar a missa e o Doutor Zezinho disse para ele que podia ser da vista. Aí ele foi numa ótica em São José do Rio Pardo e disseram que aqueles óculos não serviam pra ele. E ele disse: “Não servem mesmo, não são meus”. Ele ficou quatro anos usando os óculos do meu pai.
Maria – Quando Padre Donizetti ia fazer a prática, ele começava a falar que amava Nossa Senhora. Eu já vi alguém amar alguém, mas como Padre Donizetti amava Nossa Senhora eu nunca vi. Era a invocação dele: “Virgem Mãe de Deus”. Ele começava a falar em Nossa Senhora e se entusiasmava. Tinha aqueles punhos engomados e ele arrancava os punhos e jogava lá no meio da igreja. Às vezes voavam, às vezes ele tirava aquilo, porque aquilo incomodava. Ele achava, como sacerdote, apesar de discordar, que a igreja devia estar sempre com romeiros. Era no tempo de Washington Luis e depois dele, Getúlio Vargas.
Vera – Um dia ele estava falando de Washington Luis no púlpito e tinha um menino, mocinho hoje, que é dono de cartório, o Mauro Caprioli e, quando o Padre estava falando do governo, ele levantou, olhou bem para o Padre e gritou: “Viva o Getúlio Vargas”. E o Padre respondeu: “Mas que coisa, hein! Em Tambaú até criança fala de política dentro da igreja”. Quando chegou no tempo da revolução ele contornou bem a situação, não houve arrelia. Ele tinha pulso.
P – Que revolução?
Vera – De 32.
Maria – Sabe quem esteve à Tambaú como médico das tropas regulares lá de Minas? Juscelino Kubitscheck. E Padre Donizetti logo entrosou com ele.
Aqui em Tambaú, nas fábricas, havia corredores e ali tinha escorpião, lacraia, aranha, cobra. Tinha muita cobra. Então o operário era mordido, picado e morria sem assistência. Até chamavam Padre Donizetti de “O Sacerdote das Cobras”. Porque ele ia para o alto falante, tocava a marcha do soldado lá no Aimone, porque ele tocava muito bem. Chamava a atenção da população e pedia que caçasse cobras, escorpiões, para mandar para o Butantã para vir de volta o soro. Na casa dele, tinha umas mesas cheias de jornais de revistas. E tinha umas compoteiras em cima, junto com as caixas das cobras. Às vezes chegava alguém pedindo esmola e ele pedia para a gente procurar por ali e o que achasse era para dar. Fossem cinquenta mil réis, cem mil réis, naquele tempo era bastante dinheiro. As pessoas iam lá e deixavam para ele. Ele falava: “Pode dar isso”. A gente ia abrir a compoteira e olha as cobras lá em cima, dentro da compoteira. As cobras fugiam da casa dele e iam para os vizinhos. Ali no Mário, diz que um dia a dona Josefina chegou na sala e tinha um rolo de cobra lá. E ele ria. Ele conseguiu salvar a vida dos operários com esse trabalho com o Butantã. E todo mundo caçava cobra. O interesse era geral. Agora já tem o soro antiofídico. Mas naquele tempo não tinha. Chegou ao ponto de morrer operário porque não tinha o soro. Isso ele conseguiu aqui em Tambaú. E esse negócio de guardar cobra na compoteira é porque não tinha mais onde por. Eu mesma fui abrir uma compoteira com a cobra lá dentro e sai pulando, porque dá medo, né? Elas fugiam pelo jardim, se penduravam nas árvores.
P – Ele defendia muito o direito dos empregados?
Maria – Defendia. E ele foi chamado de comunista por isso. Quem acusou ele de comunista? As pessoas que tinham posse, as que exploravam o trabalho humano, as que não davam condições de vida.
P – Tem alguém que está vivo hoje e que na época teve algum atrito com o Padre Donizetti?
Maria – Padre Donizetti teve atrito com quase todo mundo que era meio fortão. Eram grupos políticos e nisso eles se afinavam. Tanto de um lado quanto do outro, ficavam com raiva do Padre Donizetti. Porque ele não tinha medo. Ele gritava mesmo. Ele formava essa sociedade dos operários. Ele defendia os operários. Ele gritava pelo salário, pela justiça, que pagassem direito, que não explorassem o trabalho dos operários, que o operário tinha o tempo do trabalho do patrão e o tempo para a família dele. Que o patrão tinha que pagar decentemente o operário para sobrar tempo para ele se dedicar à família, para educar os filhos, para orientar, conversar com o filho.
Porque eles pagavam aqui em Tambaú com o vale ou senão assinavam a folha em branco. Eu vi muito isso, porque eu trabalhei trinta anos no Posto de Saúde, de puericultura. E lá em via. Eu tinha ficha social, ia nas casas fazer levantamento. Trabalhava com gestantes. O que o SOS faz aí eu fazia sozinha lá no posto de puericultura. Orientação do Padre Donizetti, porque a Associação de Proteção à Maternidade e Infância no fim ficou ele e a gente trabalhava de acordo.
Aí sempre teve uma ala contra o Padre Donizetti. Mas justo por isso, por causa dos direitos do ser humano. Direito de viver, de amar os seus familiares, seus amigos e ter hora de lazer. Ele arrumou uma biblioteca para o centro operário e a gente foi lá catalogar os livros, fazer fichários, para os rapazes, os operários irem ler. Ele foi mostrando aos operários que eles eram gente, não burros de carga, animais irracionais. Se houve alguma onda contra o Padre Donizetti, o senhor pode crer, foi por isso. Ele era esclarecido, era culto, era educado, era um santo sacerdote. Um bom sacerdote. Só isso. E agora eles ficam aí com essa exploração. Diz que tem um livrinho por aí que é um vexame, uma vergonha.
Entrevistador – Têm vários.
Maria – Não pode. A igreja não pode permitir uma coisa dessas. Precisa tirar. Eu já falei pra “Mariinha”.
P – E sobre uma cilada que ele teria sofrido?
Maria – Eles armaram ciladas. Tentaram desmoralizar o Padre Donizetti de todo jeito. Os antigos lá de Vargem Grande contavam que uma vez fizeram uma cilada pra ele. Não vou falar o nome da mulher porque pode ser que me falha. Eu misturo com outra e é uma acusação grave. Essa mulher disse que havia uma pessoa doente na casa dela. Ele foi com um amigo e parou na porteira, dizendo para o amigo esperar. Foi até a casa e tinha uma mulher para tentar o Padre Donizetti. Ele era bem moço. Mas ele escapou de lá. A preocupação do Padre Donizetti era de não deixar a igreja ser atingida. Ele achava que o ministério dele era uma coisa tão sagrada que não podia ser atingido. Ele preferia morrer a se deixar atingir como sacerdote.
Outra vez fizeram outra cilada. Um inimigo dele mandou chamá-lo na cidade dizendo que tinha um homem morrendo na fazenda. Ele foi, entrou na casa que estava toda iluminada e não viu ninguém. Ai veio um empregado e ele disse: “Cadê o doente”. O homem respondeu que estava no quarto. Ele entrou no quarto e tinha um homem na cama, virado para o canto. Ele chamou o homem e viu que ele tinha morrido. Quando ele chegou perto, saiu um homem de baixo da cama que era para matar ele. Isso Vargem Grande inteirinha sabe. Minha mãe também contava isso e o Padre Donizetti mesmo confirmou.
Na próxima entrevista: Custódio de Rezende.

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