quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Vozes do Passado - Lindolfo Dutra

Paulo Rogério B. Rocco

“Quem perdeu o trem da história por querer, saiu do juízo sem saber. Foi mais um covarde a se esconder diante de um novo mundo”.

(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)

Em uma verdadeira pesquisa jornalística, principalmente de fundo histórico, é preciso que o repórter entreviste os vivos e os mortos. Não é porque a pessoa deixou de existir que devemos deixar a história morrer com ela.
Logicamente, esse trabalho fica muito mais fácil para o profissional quando há material, escrito ou gravado, com esses relatos.
Do meu arquivo pessoal, irei transcrever aqui uma série de entrevistas realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima.
O primeiro entrevistado nasceu no ano de 1900 e viveu até 1982. Foi assistente do Padre Donizetti durante muito tempo e conviveu com o vigário de Tambaú por cerca de cinquenta anos.
Nossa primeira entrevista desta série foi realizada em 21 de Julho de 1979. Esta voz do passado é do senhor Lindolfo Caetano Dutra.
Bem vindo ao trem da história.

Entrevista com Lindolfo Caetano Dutra (foto)

Pergunta – Seu nome?
Resposta – Lindolfo Caetano Dutra.

P – Quantos anos o senhor tem?
R – 79 anos completos.

P – O senhor conheceu bem o Padre Donizetti?
R – Faz mais de cinquenta anos. Eu o conheci muito antes de ele vir pra Tambaú.

P – O conheceu quando ele estava em Vargem Grande?
R – Sim. Ele fez meu casamento lá em Vargem Grande, dia 24 de Julho. No dia 26 de Julho ele veio para Tambaú.

P – De que ano?
R – Em 1926.

P – O que o senhor achou de mais interessante no Padre Donizetti?
R – Ele sabia o que estava para acontecer. Ele dava as bênçãos em particular. Orava. E quando a pessoa sarava, ele falava: não me conta para ninguém que eu não quero que as pessoas de fora saibam. Só meus paroquianos.

E foi continuando assim. Desde que ele chegou, até 1954. No dia 2 de Novembro de 1954, teve uma reunião da Congregação Mariana e das Filhas de Maria. Eu era o presidente da Congregação Mariana. Uma congregada pediu a ele: “Padre Donizetti, o senhor me dá licença que estou sofrendo muito com o dedo. Estou com penariz e está me doendo muito”. E ele falou: “Não minha filha, fica aí. Senta aí”. Ele arrumou uma cadeira e ela sentou. Fizemos a conferencia toda e às dez e meia da noite nós terminamos. Quando todos estavam despedindo dele, ela veio se despedir e ele perguntou: “Minha filha, como vai o dedo?”. O penariz sumiu e ele não viu. Não percebeu. Quando ele falou e ela apertou a mão dela ela disse: “Padre Donizetti, não tenho mais nada”. Ele disse então: “Minha filha, estou indo embora. Não conta para ninguém”.

Depois em seguida eu vim com ele e aqui no jardim eu me despedi. Ele foi para a casa dele e eu vim para a minha. Então chegou um carro na casa dele. Como naquela época era raríssimo esse negócio de carro, principalmente à noite, ele me chamou para ir ver quem estava naquele carro. Eu fui com ele. Chegamos e eram dois senhores.
Um deles falou de dentro do carro: “Padre Donizetti, isso é hora de ficar na rua?” O Padre conheceu a voz dele e respondeu: “Vocês também, o que estão fazendo?”
Então chegamos e cumprimentamos. Eram dois médicos de Poços de Caldas. Padre Donizetti convidou-os para entrar. E eles disseram: “Não. Nós viemos aqui só para ver o senhor. Para cumprimentar”. Eles já eram amigos velhos, desde Vargem Grande. O padre insistiu e eles desceram um pouco.

O Padre perguntou para um dos médicos: “Como vai de saúde? A família? Tudo bem?”. Um disse que ia indo muito bem. Já o outro falou que não. “Olha Padre Donizetti, para mim não vai nada bem. Eu estou com uma filha doente há muito tempo. Está desenganada pela medicina. E já fui para os Estados Unidos, fui na Alemanha. Levei-a e não adiantou nada. Ela esta cada vez pior”.

Padre Donizetti disse: “Tenha fé em Deus que sua filha vai sarar. Você vai encontrar sua filha boa quando chegar lá na sua casa”.
Mas o médico não ligou para isso. E eles foram para Santa Rita do Passa Quatro. Pois eles tinham sido chamados naquela cidade. No dia seguinte ficaram lá e no outro voltaram para Poços de Caldas. Quando o médico chegou na casa dele, encontrou sua filha debruçada no alpendre.
Ele perguntou: “Minha filha, o que está havendo?”. E ela respondeu: “Ah, papai. Eu não tenho mais nada”.

Quando ela falou que não tinha mais nada ele se sentiu mal. Quase desmaiou. Mas não se lembrava do Padre Donizetti. Então ele entrou em casa e a mulher disse: “De anteontem para cá ela melhorou e não tem mais nada”. Quando foi a tarde ele disse para a mulher: “Parece que o Padre Donizetti me disse que eu iria encontrar minha filha boa”. E foi na casa do outro médico que confirmou: “O Padre falou isso sim”. Então o primeiro disse: “O Padre Donizetti curou minha filha”.

No dia seguinte, eram umas sete horas da manhã, vieram os dois médicos e as duas famílias aqui, agradecerem a cura da filha.
Padre Donizetti disse: ”Meu filho, eu não curo ninguém. Eu peço a Deus. Então Deus atende ao pedido”.

E foi por Deus que isso tudo começou. Um dos médicos disse: “Padre Donizetti, nós temos um grande amigo lá em Poços de Caldas que ele não pode morrer agora. Nós estamos trabalhando e lutando por ele. O senhor dá licença de eu mandar ele aqui?”.
O Padre respondeu que sim.
Quando eles saíram, eu disse: “O senhor disse que não era para ninguém saber. Aí o senhor cura a filha do médico e diz que ele pode mandar um doente aqui?”.
E ele respondeu: “Agora não sou eu mais que quero. Agora é Deus que quer”.

No dia seguinte veio o velho doente, o senhor João. Um bilionário de Poços de Caldas que era produtor do vinho Marcassa. Chegaram a tarde. O Padre deu a benção, mas não manifestou nada. Ai foram posar no hotel. No outro dia o trouxeram cedo. O padre deu nova benção e não manifestou nada. Mas quando foram embora, perto de Águas da Prata, para subir para Poços de Caldas, o velho começou a melhorar.
Quando chegou no alto da serra, o velho disse: “Parece que eu não tenho mais nada”. Começou a ficar alegre, mexendo no carro. Quando chegou na casa dele, desceu do carro e viu que não tinha mais nada.

Ai ele mandou o filho nas estações de rádio convidar o povo em geral para ir a casa dele assistir a uma grande festa que ele iria fazer pelo grande milagre que tinha recebido do Padre Donizetti de Tambaú.
E mandou anunciar também nas rádios, jornais de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo quanto era capital. Aí foi onde se sucedeu as romarias.
Depois esse velho ainda veio aqui muitas vezes. Era um grande amigo meu.

Tempos depois veio a mãe do Jânio Quadros, que era governador do Estado. Ela andava sempre doente e pediu para o filho trazê-la em Tambaú, que o Padre aqui estava fazendo cura. E o Jânio a trouxe aqui em Tambaú. O Padre deu a benção e ela sarou. Quando foram despedir-se Jânio disse que o que o Padre precisasse aqui em Tambaú, que ele estaria à disposição.

E foi preciso a ajuda de Jânio, pois o movimento foi aumentando, aumentado e chegou num ponto que não tinha mais nada em Tambaú nem para comer. A multidão era demais. Trinta, quarenta mil pessoas diariamente. Era dia e noite. As pessoas dormiam debaixo de carros, de ônibus. Era uma coisa fora do comum.

Tinha pessoas que eram picadas por cobras e ele dava a benção e a pessoa não tinha mais nada. Depois que ele veio para cá não morreu mais uma pessoa picada de cobra. E antes era demais. Existia muita cobra. Eu mesmo, na fazenda do meu pai, pegava uma média de quarenta, cinquenta cobras por mês e mandava para o Butantã, por intermédio do Padre.

Começou com a filha do médico. Depois o milionário para anunciar. E a mãe do Jânio Quadros para garantir a notícia. E deu tudo certinho. Depois continuou dando benção. Até hoje muita gente está recebendo graças.

P – É verdade que o Padre Donizetti defendia os pobres e ele ficava um pouco irritado com os fazendeiros?
R – Ficava quando eles cometiam erros. Os pobres todos vinham aqui clamar por ele. E ele era muito amigo dos pobres. Ele dava a vida por eles.

P – O que o senhor viu ele fazer pelos pobres?
R – Eu vi muitas vezes. Quando atrasavam os pagamentos dessas fábricas, ele chamava a atenção dos patrões e eles faziam os pagamentos. O padre não aceitava pagamentos com ordem, pois se usava muito isso. E ele então falava mesmo para os patrões. Falava no púlpito da igreja que não aceitava pagamento com ordem. Porque ordem era um roubo. E ele falava abertamente.

P – O que era pagamento com ordem?
R – O Patrão escrevia um bilhetinho e arranjava um comércio qualquer para fornecer aos empregados. Então eles pagavam com ordens e quando chegava o tempo, o patrão ia ao comércio e pagava.

P – Ele era um homem calmo e tranquilo?
R – Não. Ele era nervoso. Muito humilde, mas nervoso. Ele levantava a voz. E ninguém o enfrentava.

P – O que deixava ele nervoso?
R – Naquela época estavam começando a usar roupas muito decoradas, saias muito curtas. Calça comprida para mulheres. E ele não aceitava. Ele colocava dois congregados na porta na igreja que não deixavam as moças entrarem se não estivessem vestidas adequadamente, fossem filhas de quem fossem. Um dia umas moças, filhas de um poderoso, estavam entrando com vestidos curtinhos e ele não deixou. Aí vieram os pais da moça. Esperaram ele acabar a missa e foram falar com ele. E o Padre disse: “Eu não aceito mesmo, aqui quem manda dentro da igreja sou eu”. E é melhor vocês voltarem para suas casas. Só aceito uma senhora, uma moça, que mora na cidade e vai visitar suas fazendas, que usem calças compridas, mas dentro da igreja não. Depois começaram a encrencar com ele e até o processaram como comunista.

P – Quem o acusou de comunista?
R – Foi um delegado, um dentista, um político e mais um. Eram quatro pessoas.

P – Eles achavam que ele era comunista por quê?
R – Porque ele apoiava muito a pobreza.

P – E ele tinha vida de pobre?
R – Tinha sim. Ele não aceitava dinheiro. As pessoas chegavam lá e iam dar dinheiro pra ele e ele não recebia. Dizia: “Entrega lá para o Dutra”.

P – E o senhor que tomava conta de tudo?
R – Na parte do dinheiro eu tomava conta de tudo. Fazia os depósitos de banco. Depois estava acumulando muito dinheiro nos bancos e ele me pedia para comprar casa e terrenos. Como de fato comprei casas, terrenos muito bons. Foram todos comprados com dinheiro que o povo dava. Os romeiros. E temos muitas obras que foram feitas com dinheiro dos romeiros. Inclusive o Santuário e o lar São Vicente.

P – Ele se dava bem com o prefeito da época? Ou eles viviam brigando.
R – Com o prefeito ele não brigava. Era uma pessoa muito boa. A prefeitura ajudava nas obras com uma parte de 30 %, o resto era dinheiro dos romeiros.

P – Nos últimos anos da vida do Padre Donizetti ele estava muito doente? De que ele morreu?
R – Estava doente. Ele baqueou muito. Ele morreu talvez seja do coração. Em 1955, foi quando ele parou de dar as bênçãos, em 30 de maio, ele suspendeu as bênçãos todas. Ele ficou cinco meses sem atender ninguém. E todos os dias tinha movimento. Eu disse a ele para colocar um horário para atender o pessoal, já que vinha muita gente de longe. Sugeri até que ele colocasse medo nas pessoas. Que desse a benção e dissesse para eles voltarem para suas casas, para não correrem o risco de terem doenças. Ele disse que não queria isso para não aumentar as romarias outra vez. Mas até o dia dele morrer, ele dava a benção às oito da manhã e às quatro da tarde. E às quatro da tarde não dava mais tempo para as pessoas irem embora.

P – Ele falava muito de Nossa Senhora?
R – Ele era muito devoto. Ele veio para cá e quando fazia uns anos, queimou a matriz de Santo Antonio. A imagem de Nossa Senhora não queimou nem o manto. Apesar de que chegou um sujeito da cidade ai e quando o fogo tava queimando os caibros, o telhado, tudo caindo, ele entrou lá dentro, pegou a imagem de Nossa Senhora Aparecida e saiu correndo. Quando chegou na porta da igreja ele não aguentou o calor e jogou ela no jardim. Não queimou o manto e não quebrou a imagem.

P – Quem entrou lá dentro?
R – Esse sujeito. Mas ele era meio atrapalhado, pois se fosse uma pessoa normal não teria entrado no meio daquilo lá tudo. Mas aquilo já era um milagre. Uma pessoa entrar dentro do fogo, dentro de uma igreja que estava caindo tudo.
Outra história sobre a santa era que um dia o tempo estava nublado. Mas não estava de chuva. Ainda há três pessoas que comprovam isso. A procissão saiu com a imagem. Aí caiu uma chuva forte. Quem estava na procissão não se molhou. Só molhou os calçados, pois a enxurrada era muita.

P – Por que ele foi embora de Vargem Grande?
R – Um repórter da Globo disse que ele saiu corrido de lá. Que o povo expulsou ele de lá. Mas não foi isso. Os fazendeiros eram contra ele. Eu não estava lá, mas meus parentes, tios e meu irmão, assistiram isso em Vargem Grande. Marcaram um dia de colocar ele num animal e soltar esse animal pelos campos. Esse dia ele não dormiu. Ficou a noite toda na rua passando em frente à porta dos inimigos que ele tinha. Mas ninguém mexeu com ele.
O bispo de Ribeirão Preto mandou várias cartas pedindo pra ele sair de Vargem Grande, dizendo que ele tinha inimigos lá. Porque ele defendia os pobres. Os inimigos dele eram os bilionários de lá. Os coronéis. Mas ele não queria sair de lá.
Ele teve um sonho, que me contou. No sonho ele ouviu uma voz que disse pra ele sair de Vargem Grande. E nós tínhamos um padre aqui que foi para Portugal e disse que não iria voltar mais. Ai o senhor bispo mandou um telegrama pro Padre Donizetti dizendo pra ele vir para Tambaú, que a paróquia estava desocupada. No outro dia ele saiu de noite de lá e quando amanheceu ele já estava aqui.

P – Aqui era diocese de Ribeirão Preto? Como chamava o bispo?
R – Era sim. Chamava-se Dom Alberto.

P – O que restou para Tambaú do Padre Donizetti? Valeu a pena essa passagem dele por aqui?
R – Muitos ainda pedem para ele. São devotos de Padre Donizetti. E mesmo na parte financeira da cidade ainda tem muita gente que vive das romarias.

P – Quantos habitantes tinham na época que o Padre Donizetti veio para cá?
R – Em 1926 Tambaú estava com uns três mil habitantes na cidade. Uns cinco mil no total. Hoje a cidade está beirando uns vinte mil.

P – O Padre Donizetti ajudou o Pedro Geraldo Costa na política? Ele pediu para o Pedro Geraldo se candidatar?
R – Sim, para vereador em São Paulo. E eu estava junto quando ele disse isso. Pedro Geraldo disse que não tinha muita vocação. O Padre disse que garantiria aqui. Quando vinha gente ele dizia que em São Paulo tinha um mocinho muito bom, que era para dar um votinho pra ele. E isso era todo dia.
E ele ganhou. Foi o vereador mais votado de São Paulo, em 1957. Depois ele se candidatou para deputado e o Padre deu uma mão também.
Ele tem um disco da benção do Padre. Padre Donizetti não deixava ninguém gravar a benção. Ele só deixou o Pedro Geraldo Costa gravar para a rádio Nacional.

Na próxima entrevista: as irmãs Vera, Maria e Constança Sandoval.

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