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| Imagem do Beato Donizetti na nova capela. |
sábado, 23 de novembro de 2019
Tambaú celebra a Beatificação de Donizetti Tavares de Lima
sexta-feira, 8 de julho de 2011
“Donizetti, Pe” emociona um público de 1.900 pessoas

sexta-feira, 20 de maio de 2011
"Donizetti, Pe" será a maior produção teatral já realizada na região

Dia 24 de Junho estréia o novo espetáculo teatral do Grupo Curtura de Teatro, produzida pela Associação Cultural Quintal das Artes e que vai retratar a vida de Padre Donizetti Tavares de Lima (foto).
“Donizetti, Pe” é uma peça teatral escrita em 1995, por Paulo Rogério B. Rocco. Romanceada e publicada em 1997, sua forma teatral permanece inédita há mais de 15 anos. Até agora.
Para lembrar e marcar os 50 anos do falecimento de Padre Donizetti Tavares de Lima, a peça será encenada pela primeira vez.
A super produção – a maior já realizada em toda a região – contará com cerca de 70 pessoas, entre atores, bailarinos e técnicos, para levar ao público a vida do Sacerdote de Tambaú que ficou conhecido no mundo todo.
Da sua infância na cidade de Franca, até sua morte, o roteiro mostra os fatos e milagres que ajudaram a formar o mito que, em breve, deve se tornar um santo brasileiro.
Baseada em entrevistas, jornais, livros e na lembrança de grandes personalidades de nossa cidade, “Donizetti, Pe” irá relatar cada fato com muita emoção.
Os figurinos dos personagens eclesiásticos foram desenhados por José Eli Costa, obedecendo todas as normas contidas da confecção das batinas, inclusive no número de botões de cada roupa. Ao todo, a peça vai utilizar mais de 400 botões encapados. Roupas de época vão abranger os quase 120 anos mostrados na história. Adereços vieram especialmente da Itália para compor algumas peças.
A Trilha Sonora inédita está sendo composta e gravada pelo compositor Antonio Neto e as maquiagens responsáveis por fazerem reviver personagens reais da nossa história, estão à cargo de Júlio Someira e equipe.
“Donizetti, Pe” irá reunir no palco alguns dos maiores nomes do teatro tambauense, além de bailarinos da SAT–Academia de Dança, com coreografias de Silvia e Elaine Castro.
Efeitos visuais, projeções e cenários farão reviver as cidades pelas quais passou Donizetti; suas casas, sua gente e sua história.
A Co-Direção é de José Ono Júnior e a Direção Geral é de Paulo Rogério Rocco.
“Donizetti, Pe” será encenada nos dias 24, 25 e 26 de Junho, na Lex Luthor Club, uma das maiores casas de espetáculo da região e uma das únicas com capacidade para abrigar este Espetáculo.
Quem quiser pode acompanhar detalhes da produção pelo twitter: @Donizetti_Pe e pelo Facebook.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Próxima peça da Quintal das Artes deve ser sobre Padre Donizetti
A próxima peça produzida pela Associação Cultural Quintal das Artes deve retratar a vida de Padre Donizetti Tavares de Lima. A informação foi divulgada na página do twitter, da Associação, na quarta, dia 26.
O texto publicado diz o seguinte: “O próximo projeto teatral da Associação deve ser um texto inédito de Paulo Rogério Rocco, escrito há 16 anos, sobre o Padre Donizetti, de Tambaú”.
Paulo Rogério é autor do livro “Donizetti, Pe.”, romance que conta a história do padre, desde sua infância, até a realização dos primeiros milagres, no ano de 1954. O autor também prepara um roteiro cinematográfico com o mesmo tema.
Ainda não há informações sobre todo o elenco e como será a realização do espetáculo, mas, as datas já estão marcadas: Dias 24, 25 e 26 de Junho.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Vozes do Passado - Sebas Sundfeld
“Toda vez que o trem apita na curva da linha, faz parada obrigatória na estação do tempo”.
(Silvio Britto)
Encerrando a série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo uma entrevista realizada em 22 de Julho de 1979.
Não que as outras não tivessem sido especiais e gratificantes de serem reproduzidas, mas esta tem um diferencial. O entrevistado, além de meu amigo e pessoa culta, premiadíssima em concursos literários – cujas trovas e crônicas percorrem o país – ainda vive em Tambaú, cidade que presenteou com o hino, a bandeira e o brasão oficiais.
Professor, escritor, ex-vereador, patrono da Biblioteca Municipal, entre tantas definições, Sebastião Alicio Sundfeld, ou simplesmente Professor Sebas é o nosso entrevistado.
As opiniões descritas aqui são, obviamente, da época em que a reportagem foi gravada e demonstram apenas um pouco do grande conhecimento e o carinho que este homem, nascido em Pirassununga, tem até hoje, por Tambaú e por um dos personagens principais da nossa história.
Bem vindos à esta parada obrigatória na estação do tempo.
Entrevista com Professor Sebas Sundfeld
Pergunta – O senhor conheceu o Padre Donizetti?
Sebas – Pessoalmente. Fomos vizinhos por um longo tempo e meu casamento foi feito por ele.
P – Aqui em Tambaú? Em que ano?
Sebas – Eu vim para Tambaú em 1949. Data daí a nossa aproximação maior, principalmente por causa da vizinhança. Eu vim como professor para cá. Não morava aqui. Sou de Pirassununga. Nasci em 5 de Julho de 1924. Aluguei uma casa onde é hoje o Patrimônio, do outro lado da praça.
P – O senhor é professor de quê?
Sebas – Eu sou professor de duas escolas, do Alfredo Guedes e do colégio Padre Donizetti. Eu dou aulas de desenho. Eu estou para aposentar.
P – O que mais o impressionou na vida do Padre Donizetti?
Sebas – A sinceridade. Eu sempre achei o Padre Donizetti uma pessoa muito franca, muito sincera. E isso é uma característica de honestidade. Ele não titubeava em dizer aquilo que pesava. O que levava muitas vezes a ofender uma pessoa. Mas não aquela ofensa ostensiva, de agressão. Ele dizia com franqueza, com muita ponderação. Ele tinha uma inteligência rápida, um raciocínio instantâneo. Ele apreendia de pronto aquilo que a pessoa estava expondo pra ele. E já antecipava inclusive a conclusão de onde a pessoa queria chegar. É um privilégio que poucas pessoas possuem. É uma inteligência invulgar. Tinha uma formação moral muito grande e uma formação religiosa indiscutível. E outra coisa. Tinha uma ausência de preconceito. Ele não fazia diferenças sociais. Ele se dava bem como todo mundo.
P – Ele tinha alguma predileção por alguma classe social?
Sebas – Pelos pobres. Vou contar um fato curioso: logo que eu vim para cá, houve uma reunião convocada por ele, com várias pessoas, a fim de se fazer um trabalho para angariar roupas para os pobres. Em Pirassununga, havia um “roupário” onde roupas eram arrecadadas, reformadas e doadas. As pessoas que precisavam iam até esse local, escolhiam a roupa e saíam com ela. Quem doava a roupa não sabia para quem iria e quem pegava não sabia de quem era. E eu sugeri essa idéia a ele. E a resposta, com sua voz de barítono foi: “Não é assim que se agasalha o pobre, não é assim que se ajuda um necessitado. Roupa velha joga-se fora”. Assim ele entendia o sentido de ajudar a quem necessitava. Isso demonstra o grande carinho que ele tinha pela classe proletária.
P – Ele foi taxado de comunista?
Sebas – Quando isso ocorreu, eu não residia ainda em Tambaú. Depois que eu vim para cá ouvi comentários a respeito. Mas eu poria a mão no fogo, tranquilamente, que ele nunca, jamais, teria alguma tendência comunista. O que ele era, era um homem além do período em que ele viveu. Vamos dar um exemplo: Monteiro Lobato foi preso como comunista só porque ele falou que o petróleo existia no Brasil. E na época não convinha dizer isso. Eu colocaria o Padre Donizetti na mesma posição. Quando ele dizia que o patrão tinha que ajudar o empregado, o pobre, era chamado de comunista. Essa maneira de ele expor não era compreendida para a época. Quando eu vim para Tambaú, os empregados daqui seriam confundidos com ligeiras. Com mendigos. Naquela época era bastante sacrificada a classe operária. Muitas vezes o Padre Donizetti ia à casa de ceramistas e naquela conversinha, a pé do fogão, ia expondo o caso de certos operários daquela firma e ia conseguindo do patrão aquilo que o operário estava precisando. Ele não era apenas o padre, ele era o promotor, ele era o juiz. Ele tinha autoridade moral. E isso é incontestável. Eu vim para cá, já professor, já adulto, então era um observador estranho da personalidade do Padre Donizetti. Não se pode dizer que sofri influência na infância para dizer o que estou dizendo: a autoridade dele se impunha por sua força moral e também por sua grande cultura. Ele debatia qualquer problema, entendia qualquer assunto, seja de arte, de ciência. De religião, então, nem se discute.
P – Padre Donizetti era um homem estudioso?
Sebas – Ele tinha uma vasta biblioteca. Era estudioso. O argumento dele era insofismável. Era imbatível. Ele sabia o que dizia e como falava. Isso demonstrava que ele conhecia profundamente o assunto. Ele falava vulgarmente numa conversinha de esquina, ele era um Padre que girava pela cidade. Agora se você fosse à casa dele e conversasse sobre Beethoven, sobre Bach, sobre qualquer músico famoso, ele entendia. Se falasse sobre Einstein, sobre Darwin, ele entendia. Ele era um homem que lia jornais. Estava sempre atualizado com problemas políticos e sociais. Naquela época Tambaú era geograficamente pequenino, esquecido em um canto do Estado. Hoje nós temos uma ligação fácil com São Paulo. Naquele tempo não. Era difícil sair de Tambaú. Então constituíamos aqui uma comunidade um pouco isolada. Então talvez daí, penso eu, a influência maior e a necessidade da presença dele aqui para resolver todos esses problemas políticos locais.
P – Ele se envolvia na política local, na política partidária?
Sebas – Não. Ele era amigo de todo mundo. Se ele era amigo do lixeiro negro, era amigo do prefeito branco e rico. Eu fui vereador em Tambaú na época da romaria. Eu não sou político. Fui apenas por circunstância da época. Tanto que nunca mais votei. Não gosto de política. Ele era amável ao atender as pessoas. Então se os políticos o procuravam ele recebia bem. Se fosse um “Zé-Ninguém”, também ele recebia bem. No relacionamento dele com políticos, se houvesse algum interesse “oculto”, ele poderia estar visando algum donativo. Quem não se aproxima ainda hoje, de políticos, visando um donativo para casa de saúde, para asilo? Como não tinha quem fizesse isso, essa era também uma função dele. Conseguir qualquer coisa para o asilo que ele tinha. Ele distribuía pilhas de cobertor para várias famílias. Isso eu vi mais de uma vez.
P – É verdade que ele teria dado apoio explícito ao Pedro Geraldo Costa quando se candidatou a vereador em São Paulo, através dos romeiros?
Sebas – Ignoro. Eu nunca me aproximei muito do movimento ocorrido em Tambaú, nessa época de romarias. Eu fiquei afastado, observando de longe. Vi fotografias dele ao lado de Pedro Geraldo Costa. Mas ele tirava fotografia com todo mundo. Não era assim uma foto de pose. Os fotógrafos estavam ali, na porta da casa dele, tirando fotografias a toda hora. Ignoro que haja dito publicamente para que os romeiros votassem em Pedro Geraldo Costa. Se eu soubesse eu diria. Sei que durante muito tempo houve romaria organizada pelo Pedro Geraldo Costa. Não só como vereador, até como deputado mesmo, ele se valeu do nome do Padre Donizetti para conseguir sua eleição. Mas a resposta à sua pergunta eu não posso dar. Eu me afastei do Padre Donizetti durante as romarias, mesmo porque ele se isolou, ou melhor, isolaram-no dentro da Casa Paroquial.
P – Eu queria de fazer uma pergunta que não fiz aos outros? O senhor deve ter uma visão da igreja de como era antigamente e essa fase de transição para o modo de pensar de hoje, da igreja...
Sebas – Obrigado por o senhor pensar que eu saiba. Sou apenas um observador, sem nenhum compromisso.
P – A pergunta é a seguinte: se o Padre Donizetti vivesse hoje, ele seria um padre moderno. Ele seguiria as orientações da CNBB?
Sebas – Se ele fosse um padre nascido na época atual, orientado de forma diferente, numa escola diferente, numa sociedade diferente, ele seria diferente. Mas ele viveu numa época bastante tradicional. Acho que a igreja é sempre a mesma, os homens é que vão modificando o aspecto exterior. Agora o interior, a parte intrínseca da igreja, ela será eterna. O colorido que é dado à religião moderna é passageiro e tudo isso vai mudar outra vez. É questão de tempo. Se o senhor quiser colocar o Padre Donizetti tradicional, o velho sacerdote, o senhor Vigário, daquela outra época, no mundo de hoje, ele estaria tão desarvorado quanto qualquer pai, qualquer avô, que está passando por uma transição. Agora, com a inteligência que ele tinha, com a bagagem hereditária que ele trouxe, de família, forjada nessa nova concepção da igreja, ele seria uma padre sensacional. Ele iria imprimir ao sacerdócio dele um ritmo, uma projeção que de qualquer maneira ele iria aparecer com destaque. Se você pegar, por exemplo, um político de quarenta anos passados ele tinha um comportamento diferente do de hoje. Ele impunha o voto, comprava o voto. Tinha o curral eleitoral. Hoje nenhum político faz mais isso. É de outra forma, colocam mulheres bonitas sorrindo, televisão. Mudou o sistema. O personagem deve ser estudado dentro do período histórico em que ele viveu. Por que outros padres não fizeram o que ele fez? Justamente porque ele era diferente. E viveu aqui, num lugar pequeno. Eu via Padre Donizetti agindo aqui em Tambaú e achava extraordinário. Tanto que sou um admirador dele incondicional. Agora, se o senhor me perguntar o aspecto místico de tudo o que ocorreu, eu me abstenho em dizer. Não porque não creia, mas porque não tenho autoridade para isso. Apenas a observação de um fato, de um fenômeno, não é prova, é apenas uma opinião.
P – O senhor acha exagerado supervalorizar os milagres?
Sebas – Tudo o que exagerado eu acho que é errado. Eu acho que não deve ser supervalorizado, porque isso imprime um aspecto exagerado. Quem somos nós para analisar um fenômeno transcendental. É preciso gente que entenda, que hajam medidos, teólogos, enfim, discutir o assunto sob todos os aspectos, científicos e teologicamente para saber se aquilo é realmente um milagre ou um fenômeno comum. Agora a nós, ignorantes e leigos, observando de longe, não podemos dizer se é ou não um milagre. O fato ocorreu? Se for o caso de repórter, a coisa muda de figura. O fato aconteceu. Agora se ele é vem de origens místicas ou não, não é o caso da reportagem. O senhor quer um exemplo? Eu não posso dar o nome, mas posso dar a origem: Piracicaba, posto de gasolina da agronomia. Eu parei o carro, no ano passado e o moço que estava colocando gasolina ficava olhando na chapa do carro. Ele disse: “eu estou vendo a chapa de Tambaú e lá me aconteceu uma coisa”. Ai veio o irmão dele e o pai. Ele me contou que ainda era pequeno no tempo da romaria e tinha uma dor de cabeça muito grande sem saber explicar. Os médicos não deram jeito. E a família estava aflita sem saber a solução. Vieram até Tambaú com o menino, receberam uma benção do Padre e voltaram para Piracicaba. No dia seguinte, disse o rapaz, que ele acordou bem, mas a cama dele estava alagada de sangue. Aí o pai continuou a história, dizendo que de fato a cama estava toda ensanguentada, até o travesseiro, ensopado de sangue. Foi uma hemorragia, constatada por um médico. Mas a criança não se lembrava de nada, nem acordou com nada. Suponho eu que a hemorragia teria sido pelo ouvido ou pelo nariz, porque se fosse pela boca teria engasgado. Daí para frente o rapazinho nunca teve mais nada. E vou lhe dar mais uma informação: em Piracicaba tem um professor de sociologia, chamado João Chiarini. Ele disse que esteve aqui em Tambaú. Era um estudioso, cético e esteve aqui trazido pela curiosidade do movimento. Ele trouxe gravador e entrevistou pessoas durante a romaria. Disse-me ele que tem um arquivo sobre o Padre Donizetti e os acontecimentos aqui de Tambaú, gravados e escritos. Ele se ofereceu para vir à Tambaú fazer uma palestra. Falei com algumas pessoas aqui e não se interessaram. E para trazer um homem desses aqui e ser um fracasso, melhor não convidar.
P – Alguns dizem que o Padre Donizetti era às vezes um pouco violento...
Sebas – Eu diria que ele tinha um temperamento forte. Não era alguém que ficasse alheio, que fugisse, que se eximisse, que se afastasse de situações. Ele enfrentava qualquer problema que surgisse. O agressivo é aquele que ofende. Ele não ofendia. Posso dar um exemplo? Aconteceu comigo e eu lembro isso hoje com muita saudade. Houve uma manhã na Casa Paroquial, eu fui convidado e estava lá. Um irmão do Padre Donizetti, Mozart, era mais baixo e mais velho que Padre Donizetti. E ficou conversando comigo. E no meio daquele mundo de gente, o Padre começou a falar com aquele povo lá fora. Eu e o irmão dele estávamos conversando baixinho. Imediatamente o Padre se virou para nós e disse: “O Padre está falando, tenham educação, calem a boca”. Ele estava certo. Se ele estava falando, não tinha nada que ficarmos conversando no fundo da sala. Eu notava isso nele. Essa reação repentina. Mas pessoalmente não houve nunca nenhum atrito com ele. Conversei muitas vezes com ele, muitos assuntos e ele nunca ergueu a voz comigo para chamar a atenção ou para me repreender. Um dia ele chegou e me convidou para trabalhar com ele na Casa Paroquial, para organizar os arquivos, papéis. E eu respondi, que havia ficado honradíssimo, mas disse que não iria. Ele perguntou por que? E eu disse que pedia desculpas e licença para não responder o porque. Eu não queria ser envolvido pelo que ocorria dentro da casa paroquial. Ele me olhou atentamente, era um pouco mais alto que eu, e disse: “Está bem, está bem. Eu conheço você”.
domingo, 1 de novembro de 2009
Vozes do Passado - Custódio Rezende
“As canções em nossa memória vão ficar. Profundas raízes vão crescer. A luz das pessoas me faz crer”.
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Continuando a série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo uma entrevista realizada em 22 de Julho de 1979 com Custódio Ribeiro de Rezende, amigo pessoal e motorista do vigário.
Custódio ficou conhecido principalmente por seu trabalho com sucata, durante tantos anos. Nasceu em 25 de Março de 1933 e faleceu em 03 de Fevereiro de 1994.
Bem vindos mais uma vez ao trem da história.
Entrevista com Custódio Ribeiro de Rezende
Pergunta – O senhor foi motorista do Padre Donizetti durante quanto tempo?
Custódio – Durante quatro anos.
P – O que o senhor lembra de interessante na vida do Padre Donizetti?
Custódio – Muitos milagres. Diversos milagres que eu vi.
P – Sobre a pessoa dele, o que mais que o senhor lembra?
Custódio – Ele era bom. E ele era enérgico. Gostava das coisas certas, direitas.
P – Ele fez coisas pelos pobres?
Custódio – O que ele ganhava ele distribuía para os pobres. No aniversário dele, dia 3 de Janeiro, ele dava mercadoria, roupa, agasalho, tudo para os pobres. Ele ia ao armazém e fazia despesa de um mês para famílias que precisavam.
P – Ele tinha problemas com fazendeiros?
Custódio – Não tinha, não. Ele ganhava muitas coisas dos fazendeiros: arroz, criação. Não só dos fazendeiros daqui, como os de fora.
P – Ele gostava dos ricos e dos pobres?
Custódio – Ele não tinha distinção. Ele tratava bem todo mundo.
P – Alguém falava mal dele?
Custódio – Nunca ouvi ninguém falar mal dele.
P – Você sabe por que ele saiu lá de Vargem Grande?
Custódio – Ele contou pra mim essa história. Disse que tinha uns fazendeiros de lá, porque ele era muito do lado dos pobres, que achavam que ele era comunista. Ele contou esse fato de quando era vigário lá. Um fazendeiro, um tal de Fontão, fingiu que um homem tava doente e mandou chamar o padre. E os capangas dele foram chamar o padre Donizetti. Chegando na casa dele, disseram que era pra ele ver o homem doente para ir dar extrema-unção. E Padre Donizetti disse aos capangas que já era tarde, pois o homem doente já estava morto. E foi o que aconteceu. Tentaram fazer mal para o padre Donizetti. E aí depois veio o castigo do fazendeiro. Esse Fontão, de Vargem Grande, perdeu quase tudo e ficou doente, muito doente, mas não morria. Ele tinha três fazendas e ficou com uma. Nessa época Padre Donizetti já era vigário aqui em Tambaú. Aí veio o recado que era para o padre ir lá dar o perdão para o homem antes dele morrer. Aí ele não foi. Um dia veio o vigário de Vargem Grande aqui e disse: “Padre Donizetti, eu fiquei triste porque soube que você foi na minha cidade, visitar o Fontão, viram o senhor entrar lá, ficar em volta da cabeceira da cama e dar o perdão a ele, antes de morrer. Eu fiquei sentido porque o senhor não chegou até minha casa”. O que aconteceu foi que, ao mesmo tempo da reza daqui, Padre Donizetti estava lá dando perdão para o fazendeiro. Ele tinha esse poder da bi-locação.
P – E o que o Padre Donizetti respondeu para o padre de lá?
Custódio – Ele deu aquela risada gostosa e disse: “Eu não fui lá, não, padre”. Mas ele foi sim, viram ele lá na cabeceira da cama do homem que tava ruim. Ele deu perdão para o homem e o homem morreu.
P – E o que o Padre Donizetti falava sobre os milagres?
Custódio – Ele falava que quem fazia os milagres era Deus. “Eu peço pra Nossa Senhora e ela pede para Deus. Quem faz é Deus”.
P – Ele ficava orgulhoso desses milagres?
Custódio – Ele só queria fazer o bem. Fazer caridade. Vinha gente passando mal. Ele dava a benção e essas pessoas saravam na hora.
P – O senhor chegou a ver milagres?
Custódio – Eu vi diversos. Paralíticos deixavam muletas, cadeiras de rodas e saiam andando. Até agora tem tido milagres por intermédio dele.
P – O senhor acredita que o Padre Donizetti é um santo?
Custódio – Eu acredito que ele seja um santo mesmo. Pelo que ele fez em vida. Dias antes de morrer ele falou: “Agora Custódio é tempo de eu me despedir deste mundo. Nossa Senhora é minha intercessora, eu peço a ela e ela pede a Deus. Depois que eu me despedir deste mundo, vou pedir diretamente para Deus e todos que pedirem em meu nome serão atendidos”. No dia da morte dele, lá na igreja, teve uma pessoa que deixou a muleta do lado do caixão dele.
P – Como ele tratava as pessoas?
Custódio – Ele tratava todo mundo bem. Os romeiros, as pessoas daqui mesmo. Ele atendia sem distinção. Para ele não tinha nem qualidade, nem cor, rico, pobre, ele tratava bem todo mundo.
P – Ele teve problemas com políticos da cidade?
Custódio – Ele falou pra mim de uns casos que teve quando ele veio para Tambaú. Ele contou que foi taxado como comunista aqui também. Os que foram contra ele aqui foram todos castigados. Ele mesmo falou pra mim. Ele contou do caso de quando ele veio e foi processado como comunista. Ele perdeu aqui no fórum de Casa Branca e os papéis foram para o Rio de Janeiro. Um padre de lá, amigo dele, ofereceu advogado para ele se defender. Ele disse que o advogado dele era Deus. Quando chegou no dia do julgamento, os papéis do processo desapareceram. Ai não deu em nada.
P – O senhor conheceu algum parente do Padre Donizetti?
Custódio – Conheci irmãos deles, o senhor Mozart, que morava em Pinheiros, em São Paulo. A cunhada dele, que morava em Monte Santos de Minas. O sobrinho, Dr. Chopin.
P – O que o povo de Tambaú pensa hoje do Padre Donizetti?
Custódio – Acho que a fé dele vai sempre aumentar. Semana toda tem romeiros que vem procurar a cura. Tem tido milagres no túmulo dele.
P – Tem muita gente ganhando dinheiro à custa do Padre Donizetti?
Custódio – Isso tem. Procuram explorar isso. Em todo lugar tem isso, como em Aparecida do Norte. As pessoas procuram ganhar o pão.
P – No tempo que o senhor foi motorista dele, o senhor era registrado?
Custódio – Registrado não. Quando ele comprou um carro, eu deixei de viajar e vim morar e trabalhar com ele. Ele era meu padrinho de crisma. Cuidei dele. Morei com ele durante uns quatro anos.
P – Que carro pertencia a ele?
Custódio – Era um Impala.
P – Ele viajava muito?
Custódio – Íamos sempre a São Paulo, na casa do irmão; em Minas, na casa da cunhada, em Franca. Ele viajava sempre para Ribeirão, para fazer comprar no mercado, para o asilo. O dinheiro, o pessoal dava para ele. Muitos donativos. Do mundo todo. Uma vez vieram vinte portugueses que alcançaram uma graça lá em Portugal e vieram agradecê-lo. Os milagres estão todos registrados em cartas, muletas, aparelhos, óculos.
P – Quantos anos o senhor tem? É casado?
Custódio – Tenho quarenta e cinco. Sou casado e tenho um menino.
domingo, 11 de outubro de 2009
80 Anos do Incêndio na Matriz
Nos arquivos deste Blog, sob o título "Aquela Sexta-Feira de 1929", é possível conhecer a verdadeira história do incêndio, retratado em dois jornais da cidade ("O Tambahú" e "A Ordem"), publicados dois dias após ter ocorrido o fato e no livro tombo da paróquia, escrito pelo próprio Padre Donizetti Tavares de Lima.
Entre as surpreendentes revelações do artigo, está o fato de que uma segunda imagem - a do padoreiro Santo Antônio - também foi salva do incêndio.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Vozes do Passado - Irmãs Sandoval
“Quem sonhou só vale se já sonhou demais. Vertente de muitas gerações. Gravado em nossos corações, um nome se escreve fundo”.
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Continuando nossa série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo aqui uma entrevista realizada em 21 de Julho de 1979 que mais parece um bate-papo, igual a tantos que presenciei, sendo vizinho desde que nasci, desta família que fez parte da história de Tambaú: as irmãs Parreira Sandoval.
Filhos de Osmundo Sandoval e Maria das Dores Parreira, a família era formada por Maria, Vera (foto), Constança, Ruth, Inês, Julieta, Maria Angélica e Sérgio. Infelizmente todos já são falecidos.
Nesta gravação aparecem as vozes de Maria e de Vera (das três, a última a falecer, em 2007, aos 90 anos). Constança também estava presente, mas como era de seu hábito, quase não falou.
Bem vindos novamente ao trem da história.
Entrevista com Irmãs Parreira Sandoval
Maria – Calmo, tranquilo? Ele era bravo. Eu tenho a impressão que é por isso que ele se “caricaturizava” um pouco.
Vera – Era como um santo gaiato que colocava o chapéu de lado. Cheguei na casa dele um dia. Ele usava o barrete de lado. Eu perguntei: “Padre Donizetti, o que é isso? Hoje o senhor está dando uma de santo?”. Ele deu uma risada e respondeu: “Ué minha filha, por que você está pensando assim?”. Eu disse: “Porque faz uns três ou quatro dias que eu li a vida desse santo”.
P – Por que ele saiu de Vargem Grande?
Maria – Eu acho que ele saiu de lá porque o Padre Donizetti tinha a cultura muito avançada, muito pra frente, com muito saber. E aquele tempo havia aquele negócio de coronelismo. Por exemplo: uma moça ia trabalhar na casa de uma família rica, aí o moço da casa abusava da moça, não casava com ela e dava um dinheiro. E Padre Donizetti achava que todas as pessoas deveriam ser respeitadas, que tinham que ter respeito pela dignidade humana. Ele foi tachado de comunista porque dizia que o homem não tem classificação social. Não aceitava que um fosse chique, outro fosse do segundo time, outro ignorante. É um ser humano que merece respeito. Ele fazia essas coisas em Vargem Grande. Diziam que ele era comunista porque não gostava dos ricos.
P – Ele não gostava dos ricos?
Maria – Gostava. Ele gostava de todo mundo. Ele gostava de gente correta.
P – Mas os maiores inimigos dele...
Maria – ...eram os ricos.
P – Mas o que ele falava diretamente com os ricos?
Maria – Ele queria justiça social. Que os patrões pagassem seus empregados. Que os patrões respeitassem a figura dos seus empregados. Que as autoridades, dirigentes do povo, servissem ao povo e não o povo servisse às autoridades.
P – Ele fala isso no púlpito?
Maria – Ele falava. E falava isso aqui em Tambaú.
Vera – Falava de direitos humanos.
P – Ele falava de direitos humanos?
Maria – Falava. Estou dizendo que ele era um homem pra frente. Nós sabemos disso há tantos anos. O que se fala hoje, ele já conversava conosco. Ele chegou a Tambaú em um dia e no outro tirou os nomes dos bancos da igreja. As igrejas tinham os bancos com o nome das famílias. Os bancos eram reservados. E o povo que ele amava – porque o Padre Donizetti amava o povo, amava gente – ficava de pé. Ele ensinou que o pobre é outro Cristo, que nosso irmão é outro Cristo vivo. Quando nós chegamos para rezar ele disse: aqui na casa do Pai todos são iguais. Aqui não tem mais banco escrito com nome de família de ninguém. Então havia o choque. Ele tinha coragem. Ele nunca teve medo.
P – É verdade que ele fechou a porta da igreja uma vez, depois do sermão, para um grupo que sempre saía durante a pregação?
Maria – Não, não é verdade. Ele não fechou, não. Eu cantava no coro. Toda vida eu fui lá de dentro da igreja. Era assim: tinha o cinema que soltava três foguetes para começar o filme. Então era hora da reza e as moças “Filhas de Maria”, muita bonitas, todas consideradas de elite, ficavam lá na frente. Soltava o primeiro foguete do cinema, elas se levantavam, iam na frente do Santíssimo já exposto, faziam sua oração e saíam. Quando acontecia isso ele gritava, olhava para trás e dizia: “não voltem mais. Aqui não é lugar de vistas repartidas, se querem ir ao cinema vão ao cinema. Se vieram à igreja estão proibidas de se levantarem, de saírem durante a reza, para ir para o cinema”. Ele falava isso pra gente e a gente considerava importante.
Ele nunca teve medo e não fazia diferença. Um dia chegou a mulher do delegado, toda despida para ir à igreja, ai o coroinha falou: “A senhora não pode entrar aqui. Tambaú não tem capela do Santíssimo. O Santíssimo fica aqui no corpo da igreja”. Aí ela disse assim: “Eu vou entrar”. Padre Donizetti veio lá de dentro: “Não entra, não. De jeito nenhum, meu rebanho não entra, a senhora também não entra. A senhora é ovelha nova aqui, tem que obedecer. A senhora vai se compor, colocar uma echarpe e depois volta”. Ele tinha atitudes assim. Ele não tinha medo. Fosse com quem fosse.
No entanto ele era procurado por tudo quanto era gente importante deste Brasil. Por sua cultura, inteligência, capacidade. Eu me enfezo quando vejo Padre Donizetti em medalhinha, aquela exploração lá em cima. Vendendo santo. Padre Donizetti não precisa disso gente. Padre Donizetti nasceu santo e morreu santo. E ele sempre falava assim pra gente: “Cuidado com o santo burro. Maria, o pior santo é o santo burro. Ele é santo, mas ele não sabe por que não tem inteligência. Então Deus dá para quem ele quer. E ele, coitado, não sabe usar. Então cuidado com o santo burro, com santo de última hora” (...) Todo sacerdote queria conhecer a vida do Padre Donizetti. Ele dizia que iria morrer com o batinão dele. E morreu com o batinão dele.
Vera – Ele achava que a batina era a farda do sacerdote.
Maria – O distinguia. Padre Donizetti foi o homem mais extraordinário.
Vera – E não sou saudosista, não.
Maria – Também não sou saudosista. Eu acho que o Padre Edson é um bom sacerdote.
Vera – Quando eu estava na escola ele falava sobre socialismo. Isso há quarenta anos atrás. Ele preconizava. Não é que ele estava prevendo. Ele era inteligente. Ele via.
Maria – Há quarenta anos ele fazia reunião conosco, “filhas de Maria” e explicava: “O feto dentro da mãe grava impressões exteriores. As moças que vão se casar tomem cuidado. Tem que levar uma vida correta, normal”. E ele explicava direitinho. Esses cursos de casamento que dão aí, ele dava para a gente em geral, para todas as “filhas de Maria”. Quem casasse, casasse. Quem não casasse, também ficava sabem como o mundo é.
P – Ele mesmo dava aulas?
Maria – Ele dava aulas pra gente. Catecismo. Ele ensinava direitinho. Ele classificava os pecados. Ele era engraçado. Ele falava para crianças: “Você pega um giz e rabisca a parede do vizinho. O vizinho tem que gastar tinta pra pintar a parede. Isso está incluído no roubo. Não é só ladrão o que abre a gaveta do outro e pega o dinheiro. O que risca, o que escreve, o que fala, o que destrói, o que desmoraliza é ladrão da honra, do dinheiro e da propriedade”. Hoje tem esse negócio de psicologia. Nós estamos cansadas de saber disso aí. O povo de Tambaú teve muito ensinamento. Nós não éramos bobas, não. Nunca fomos. Vinha sempre o monsenhor Henrique Magalhães, um grande orador. Ele vinha muito aqui fazer conferência para nós, para os marianos. Ele tinha 1.200 marianos com ele.
Vera – Eles falam agora de sindicato dos operários. O Padre Donizetti já tinha.
Maria – Ele já tinha o Sindicato. Isso não é novidade para nós. Eu vejo a “Família Cristã”, vejo tudo isso e digo: “Padre Donizetti era inteligente mesmo”.
Eles tentaram matar o Padre Donizetti em Vargem Grande vezes sem conta. Aqui também. Eu sei o que aconteceu que eles falavam que os ricos não gostavam dele. Tinha uma ala da minha gente que fez isso. Uma ala dos Fontão, que brigava com o Padre Donizetti. Era duríssimo, porque ele queria mandar e desmandar. Ele sempre foi correto, ele sempre foi bom, ele sempre foi educado. Ele sempre foi santo.
P – Quanto aos milagres. O que vocês acham?
Maria – Eu acompanhei um. Aconteceu uma coisa comigo. Quando eu estava na igreja, onde eu cantava ou ensaiava, às vezes doía o dente das meninas, doía a cabeça. E as meninas falavam para o Padre dar a benção e sarava. Mas eu falava que ele podia me dar a benção, mas que é para arranjar um Melhoral também. Ele me dava o remédio e passava. Um dia, antes de começar aquele negócio de bênçãos, eu fiquei um uma conjuntivite virulenta. Então tinha pus, inflamação. Eu saí de casa e fui ao Padre Donizetti pedir uma benção. Cheguei lá e ele estava no sofá. Ele disse: “Muito bem, então a senhora sumiu daqui e agora resolveu voltar!”. Eu pedi a benção e ele disse para eu me ajoelhar. Ajoelhei-me e ele colocou o dedo no meu olho e deu essa benção. Ela é linda, né? Ele acabou de dar a benção e depois começou a conversar de política e quando acabamos de conversar eu me levantei e fui embora. Quando passei pelo porta-chapéus da casa dele eu olhei no espelho e depois sai. Cheguei em casa e não tinha mais nada no olho. E depois teve o milagre da minha sobrinha, Rita.
Vera – Na época das bênçãos foram falar para ele que nós não acreditávamos nos milagres. Ele ficou bravo e mandou nos chamar. Eu disse: “Senhor Vigário, o senhor está bravo com a gente?” Aí uma delas falou: “Elas não acreditam”. Eu disse: Senhor Vigário, nós estamos agindo como o senhor sempre ensinou. “Cuidado com os falsos profetas. E agora, Padre Donizetti, nós vamos acreditar no que o senhor pregou ou no que estamos vendo agora?”. Ele me abraçou e disse: “continue acreditando no que a igreja ensina”.
Maria – “Fique sempre com o bom senso da igreja”. Eu falei para ele: “Padre Donizetti, eu nunca disse que não acredito nos seus milagres. Primeiro que aqui fica tanta gente que a gente não entra. Não chega. E eu fico lá em casa recebendo tanta gente que vem”. Ele sempre ensinou na igreja que há três fatores para esses pretensos milagres: o clima, a água e o sistema nervoso. Agora a parapsicologia está explicando isso, mas naquele tempo ninguém sabia disso. “O senhor ensinava as coisas para gente e agora fica bravo”. Mas nessa altura ele já estava doente, com má circulação.
Vera – Um dia ele mandou me chamar: “Vera, eu preciso te contar”. Ele era muito engraçado. E era muito amigo do meu pai. Ele disse que encontrou com meu pai e disse que não estava enxergando muito bem. Ai meu pai emprestou um par de óculos para ele. Ele pegou e disse que estava ótimo. Disse que tinha sentido uma tontura depois de rezar a missa e o Doutor Zezinho disse para ele que podia ser da vista. Aí ele foi numa ótica em São José do Rio Pardo e disseram que aqueles óculos não serviam pra ele. E ele disse: “Não servem mesmo, não são meus”. Ele ficou quatro anos usando os óculos do meu pai.
Maria – Quando Padre Donizetti ia fazer a prática, ele começava a falar que amava Nossa Senhora. Eu já vi alguém amar alguém, mas como Padre Donizetti amava Nossa Senhora eu nunca vi. Era a invocação dele: “Virgem Mãe de Deus”. Ele começava a falar em Nossa Senhora e se entusiasmava. Tinha aqueles punhos engomados e ele arrancava os punhos e jogava lá no meio da igreja. Às vezes voavam, às vezes ele tirava aquilo, porque aquilo incomodava. Ele achava, como sacerdote, apesar de discordar, que a igreja devia estar sempre com romeiros. Era no tempo de Washington Luis e depois dele, Getúlio Vargas.
Vera – Um dia ele estava falando de Washington Luis no púlpito e tinha um menino, mocinho hoje, que é dono de cartório, o Mauro Caprioli e, quando o Padre estava falando do governo, ele levantou, olhou bem para o Padre e gritou: “Viva o Getúlio Vargas”. E o Padre respondeu: “Mas que coisa, hein! Em Tambaú até criança fala de política dentro da igreja”. Quando chegou no tempo da revolução ele contornou bem a situação, não houve arrelia. Ele tinha pulso.
P – Que revolução?
Vera – De 32.
Maria – Sabe quem esteve à Tambaú como médico das tropas regulares lá de Minas? Juscelino Kubitscheck. E Padre Donizetti logo entrosou com ele.
Aqui em Tambaú, nas fábricas, havia corredores e ali tinha escorpião, lacraia, aranha, cobra. Tinha muita cobra. Então o operário era mordido, picado e morria sem assistência. Até chamavam Padre Donizetti de “O Sacerdote das Cobras”. Porque ele ia para o alto falante, tocava a marcha do soldado lá no Aimone, porque ele tocava muito bem. Chamava a atenção da população e pedia que caçasse cobras, escorpiões, para mandar para o Butantã para vir de volta o soro. Na casa dele, tinha umas mesas cheias de jornais de revistas. E tinha umas compoteiras em cima, junto com as caixas das cobras. Às vezes chegava alguém pedindo esmola e ele pedia para a gente procurar por ali e o que achasse era para dar. Fossem cinquenta mil réis, cem mil réis, naquele tempo era bastante dinheiro. As pessoas iam lá e deixavam para ele. Ele falava: “Pode dar isso”. A gente ia abrir a compoteira e olha as cobras lá em cima, dentro da compoteira. As cobras fugiam da casa dele e iam para os vizinhos. Ali no Mário, diz que um dia a dona Josefina chegou na sala e tinha um rolo de cobra lá. E ele ria. Ele conseguiu salvar a vida dos operários com esse trabalho com o Butantã. E todo mundo caçava cobra. O interesse era geral. Agora já tem o soro antiofídico. Mas naquele tempo não tinha. Chegou ao ponto de morrer operário porque não tinha o soro. Isso ele conseguiu aqui em Tambaú. E esse negócio de guardar cobra na compoteira é porque não tinha mais onde por. Eu mesma fui abrir uma compoteira com a cobra lá dentro e sai pulando, porque dá medo, né? Elas fugiam pelo jardim, se penduravam nas árvores.
P – Ele defendia muito o direito dos empregados?
Maria – Defendia. E ele foi chamado de comunista por isso. Quem acusou ele de comunista? As pessoas que tinham posse, as que exploravam o trabalho humano, as que não davam condições de vida.
P – Tem alguém que está vivo hoje e que na época teve algum atrito com o Padre Donizetti?
Maria – Padre Donizetti teve atrito com quase todo mundo que era meio fortão. Eram grupos políticos e nisso eles se afinavam. Tanto de um lado quanto do outro, ficavam com raiva do Padre Donizetti. Porque ele não tinha medo. Ele gritava mesmo. Ele formava essa sociedade dos operários. Ele defendia os operários. Ele gritava pelo salário, pela justiça, que pagassem direito, que não explorassem o trabalho dos operários, que o operário tinha o tempo do trabalho do patrão e o tempo para a família dele. Que o patrão tinha que pagar decentemente o operário para sobrar tempo para ele se dedicar à família, para educar os filhos, para orientar, conversar com o filho.
Porque eles pagavam aqui em Tambaú com o vale ou senão assinavam a folha em branco. Eu vi muito isso, porque eu trabalhei trinta anos no Posto de Saúde, de puericultura. E lá em via. Eu tinha ficha social, ia nas casas fazer levantamento. Trabalhava com gestantes. O que o SOS faz aí eu fazia sozinha lá no posto de puericultura. Orientação do Padre Donizetti, porque a Associação de Proteção à Maternidade e Infância no fim ficou ele e a gente trabalhava de acordo.
Aí sempre teve uma ala contra o Padre Donizetti. Mas justo por isso, por causa dos direitos do ser humano. Direito de viver, de amar os seus familiares, seus amigos e ter hora de lazer. Ele arrumou uma biblioteca para o centro operário e a gente foi lá catalogar os livros, fazer fichários, para os rapazes, os operários irem ler. Ele foi mostrando aos operários que eles eram gente, não burros de carga, animais irracionais. Se houve alguma onda contra o Padre Donizetti, o senhor pode crer, foi por isso. Ele era esclarecido, era culto, era educado, era um santo sacerdote. Um bom sacerdote. Só isso. E agora eles ficam aí com essa exploração. Diz que tem um livrinho por aí que é um vexame, uma vergonha.
Entrevistador – Têm vários.
Maria – Não pode. A igreja não pode permitir uma coisa dessas. Precisa tirar. Eu já falei pra “Mariinha”.
P – E sobre uma cilada que ele teria sofrido?
Maria – Eles armaram ciladas. Tentaram desmoralizar o Padre Donizetti de todo jeito. Os antigos lá de Vargem Grande contavam que uma vez fizeram uma cilada pra ele. Não vou falar o nome da mulher porque pode ser que me falha. Eu misturo com outra e é uma acusação grave. Essa mulher disse que havia uma pessoa doente na casa dela. Ele foi com um amigo e parou na porteira, dizendo para o amigo esperar. Foi até a casa e tinha uma mulher para tentar o Padre Donizetti. Ele era bem moço. Mas ele escapou de lá. A preocupação do Padre Donizetti era de não deixar a igreja ser atingida. Ele achava que o ministério dele era uma coisa tão sagrada que não podia ser atingido. Ele preferia morrer a se deixar atingir como sacerdote.
Outra vez fizeram outra cilada. Um inimigo dele mandou chamá-lo na cidade dizendo que tinha um homem morrendo na fazenda. Ele foi, entrou na casa que estava toda iluminada e não viu ninguém. Ai veio um empregado e ele disse: “Cadê o doente”. O homem respondeu que estava no quarto. Ele entrou no quarto e tinha um homem na cama, virado para o canto. Ele chamou o homem e viu que ele tinha morrido. Quando ele chegou perto, saiu um homem de baixo da cama que era para matar ele. Isso Vargem Grande inteirinha sabe. Minha mãe também contava isso e o Padre Donizetti mesmo confirmou.
Na próxima entrevista: Custódio de Rezende.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Vozes do Passado - Lindolfo Dutra
(Beto Guedes e Ronaldo Bastos)
Em uma verdadeira pesquisa jornalística, principalmente de fundo histórico, é preciso que o repórter entreviste os vivos e os mortos. Não é porque a pessoa deixou de existir que devemos deixar a história morrer com ela.
Logicamente, esse trabalho fica muito mais fácil para o profissional quando há material, escrito ou gravado, com esses relatos.
Do meu arquivo pessoal, irei transcrever aqui uma série de entrevistas realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima.
O primeiro entrevistado nasceu no ano de 1900 e viveu até 1982. Foi assistente do Padre Donizetti durante muito tempo e conviveu com o vigário de Tambaú por cerca de cinquenta anos.
Nossa primeira entrevista desta série foi realizada em 21 de Julho de 1979. Esta voz do passado é do senhor Lindolfo Caetano Dutra.
Bem vindo ao trem da história.

Entrevista com Lindolfo Caetano Dutra (foto)
Pergunta – Seu nome?
Resposta – Lindolfo Caetano Dutra.
P – Quantos anos o senhor tem?
R – 79 anos completos.
P – O senhor conheceu bem o Padre Donizetti?
R – Faz mais de cinquenta anos. Eu o conheci muito antes de ele vir pra Tambaú.
P – O conheceu quando ele estava em Vargem Grande?
R – Sim. Ele fez meu casamento lá em Vargem Grande, dia 24 de Julho. No dia 26 de Julho ele veio para Tambaú.
P – De que ano?
R – Em 1926.
P – O que o senhor achou de mais interessante no Padre Donizetti?
R – Ele sabia o que estava para acontecer. Ele dava as bênçãos em particular. Orava. E quando a pessoa sarava, ele falava: não me conta para ninguém que eu não quero que as pessoas de fora saibam. Só meus paroquianos.
E foi continuando assim. Desde que ele chegou, até 1954. No dia 2 de Novembro de 1954, teve uma reunião da Congregação Mariana e das Filhas de Maria. Eu era o presidente da Congregação Mariana. Uma congregada pediu a ele: “Padre Donizetti, o senhor me dá licença que estou sofrendo muito com o dedo. Estou com penariz e está me doendo muito”. E ele falou: “Não minha filha, fica aí. Senta aí”. Ele arrumou uma cadeira e ela sentou. Fizemos a conferencia toda e às dez e meia da noite nós terminamos. Quando todos estavam despedindo dele, ela veio se despedir e ele perguntou: “Minha filha, como vai o dedo?”. O penariz sumiu e ele não viu. Não percebeu. Quando ele falou e ela apertou a mão dela ela disse: “Padre Donizetti, não tenho mais nada”. Ele disse então: “Minha filha, estou indo embora. Não conta para ninguém”.
Depois em seguida eu vim com ele e aqui no jardim eu me despedi. Ele foi para a casa dele e eu vim para a minha. Então chegou um carro na casa dele. Como naquela época era raríssimo esse negócio de carro, principalmente à noite, ele me chamou para ir ver quem estava naquele carro. Eu fui com ele. Chegamos e eram dois senhores.
Um deles falou de dentro do carro: “Padre Donizetti, isso é hora de ficar na rua?” O Padre conheceu a voz dele e respondeu: “Vocês também, o que estão fazendo?”
Então chegamos e cumprimentamos. Eram dois médicos de Poços de Caldas. Padre Donizetti convidou-os para entrar. E eles disseram: “Não. Nós viemos aqui só para ver o senhor. Para cumprimentar”. Eles já eram amigos velhos, desde Vargem Grande. O padre insistiu e eles desceram um pouco.
O Padre perguntou para um dos médicos: “Como vai de saúde? A família? Tudo bem?”. Um disse que ia indo muito bem. Já o outro falou que não. “Olha Padre Donizetti, para mim não vai nada bem. Eu estou com uma filha doente há muito tempo. Está desenganada pela medicina. E já fui para os Estados Unidos, fui na Alemanha. Levei-a e não adiantou nada. Ela esta cada vez pior”.
Padre Donizetti disse: “Tenha fé em Deus que sua filha vai sarar. Você vai encontrar sua filha boa quando chegar lá na sua casa”.
Mas o médico não ligou para isso. E eles foram para Santa Rita do Passa Quatro. Pois eles tinham sido chamados naquela cidade. No dia seguinte ficaram lá e no outro voltaram para Poços de Caldas. Quando o médico chegou na casa dele, encontrou sua filha debruçada no alpendre.
Ele perguntou: “Minha filha, o que está havendo?”. E ela respondeu: “Ah, papai. Eu não tenho mais nada”.
Quando ela falou que não tinha mais nada ele se sentiu mal. Quase desmaiou. Mas não se lembrava do Padre Donizetti. Então ele entrou em casa e a mulher disse: “De anteontem para cá ela melhorou e não tem mais nada”. Quando foi a tarde ele disse para a mulher: “Parece que o Padre Donizetti me disse que eu iria encontrar minha filha boa”. E foi na casa do outro médico que confirmou: “O Padre falou isso sim”. Então o primeiro disse: “O Padre Donizetti curou minha filha”.
No dia seguinte, eram umas sete horas da manhã, vieram os dois médicos e as duas famílias aqui, agradecerem a cura da filha.
Padre Donizetti disse: ”Meu filho, eu não curo ninguém. Eu peço a Deus. Então Deus atende ao pedido”.
E foi por Deus que isso tudo começou. Um dos médicos disse: “Padre Donizetti, nós temos um grande amigo lá em Poços de Caldas que ele não pode morrer agora. Nós estamos trabalhando e lutando por ele. O senhor dá licença de eu mandar ele aqui?”.
O Padre respondeu que sim.
Quando eles saíram, eu disse: “O senhor disse que não era para ninguém saber. Aí o senhor cura a filha do médico e diz que ele pode mandar um doente aqui?”.
E ele respondeu: “Agora não sou eu mais que quero. Agora é Deus que quer”.
No dia seguinte veio o velho doente, o senhor João. Um bilionário de Poços de Caldas que era produtor do vinho Marcassa. Chegaram a tarde. O Padre deu a benção, mas não manifestou nada. Ai foram posar no hotel. No outro dia o trouxeram cedo. O padre deu nova benção e não manifestou nada. Mas quando foram embora, perto de Águas da Prata, para subir para Poços de Caldas, o velho começou a melhorar.
Quando chegou no alto da serra, o velho disse: “Parece que eu não tenho mais nada”. Começou a ficar alegre, mexendo no carro. Quando chegou na casa dele, desceu do carro e viu que não tinha mais nada.
Ai ele mandou o filho nas estações de rádio convidar o povo em geral para ir a casa dele assistir a uma grande festa que ele iria fazer pelo grande milagre que tinha recebido do Padre Donizetti de Tambaú.
E mandou anunciar também nas rádios, jornais de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, tudo quanto era capital. Aí foi onde se sucedeu as romarias.
Depois esse velho ainda veio aqui muitas vezes. Era um grande amigo meu.
Tempos depois veio a mãe do Jânio Quadros, que era governador do Estado. Ela andava sempre doente e pediu para o filho trazê-la em Tambaú, que o Padre aqui estava fazendo cura. E o Jânio a trouxe aqui em Tambaú. O Padre deu a benção e ela sarou. Quando foram despedir-se Jânio disse que o que o Padre precisasse aqui em Tambaú, que ele estaria à disposição.
E foi preciso a ajuda de Jânio, pois o movimento foi aumentando, aumentado e chegou num ponto que não tinha mais nada em Tambaú nem para comer. A multidão era demais. Trinta, quarenta mil pessoas diariamente. Era dia e noite. As pessoas dormiam debaixo de carros, de ônibus. Era uma coisa fora do comum.
Tinha pessoas que eram picadas por cobras e ele dava a benção e a pessoa não tinha mais nada. Depois que ele veio para cá não morreu mais uma pessoa picada de cobra. E antes era demais. Existia muita cobra. Eu mesmo, na fazenda do meu pai, pegava uma média de quarenta, cinquenta cobras por mês e mandava para o Butantã, por intermédio do Padre.
Começou com a filha do médico. Depois o milionário para anunciar. E a mãe do Jânio Quadros para garantir a notícia. E deu tudo certinho. Depois continuou dando benção. Até hoje muita gente está recebendo graças.
P – É verdade que o Padre Donizetti defendia os pobres e ele ficava um pouco irritado com os fazendeiros?
R – Ficava quando eles cometiam erros. Os pobres todos vinham aqui clamar por ele. E ele era muito amigo dos pobres. Ele dava a vida por eles.
P – O que o senhor viu ele fazer pelos pobres?
R – Eu vi muitas vezes. Quando atrasavam os pagamentos dessas fábricas, ele chamava a atenção dos patrões e eles faziam os pagamentos. O padre não aceitava pagamentos com ordem, pois se usava muito isso. E ele então falava mesmo para os patrões. Falava no púlpito da igreja que não aceitava pagamento com ordem. Porque ordem era um roubo. E ele falava abertamente.
P – O que era pagamento com ordem?
R – O Patrão escrevia um bilhetinho e arranjava um comércio qualquer para fornecer aos empregados. Então eles pagavam com ordens e quando chegava o tempo, o patrão ia ao comércio e pagava.
P – Ele era um homem calmo e tranquilo?
R – Não. Ele era nervoso. Muito humilde, mas nervoso. Ele levantava a voz. E ninguém o enfrentava.
P – O que deixava ele nervoso?
R – Naquela época estavam começando a usar roupas muito decoradas, saias muito curtas. Calça comprida para mulheres. E ele não aceitava. Ele colocava dois congregados na porta na igreja que não deixavam as moças entrarem se não estivessem vestidas adequadamente, fossem filhas de quem fossem. Um dia umas moças, filhas de um poderoso, estavam entrando com vestidos curtinhos e ele não deixou. Aí vieram os pais da moça. Esperaram ele acabar a missa e foram falar com ele. E o Padre disse: “Eu não aceito mesmo, aqui quem manda dentro da igreja sou eu”. E é melhor vocês voltarem para suas casas. Só aceito uma senhora, uma moça, que mora na cidade e vai visitar suas fazendas, que usem calças compridas, mas dentro da igreja não. Depois começaram a encrencar com ele e até o processaram como comunista.
P – Quem o acusou de comunista?
R – Foi um delegado, um dentista, um político e mais um. Eram quatro pessoas.
P – Eles achavam que ele era comunista por quê?
R – Porque ele apoiava muito a pobreza.
P – E ele tinha vida de pobre?
R – Tinha sim. Ele não aceitava dinheiro. As pessoas chegavam lá e iam dar dinheiro pra ele e ele não recebia. Dizia: “Entrega lá para o Dutra”.
P – E o senhor que tomava conta de tudo?
R – Na parte do dinheiro eu tomava conta de tudo. Fazia os depósitos de banco. Depois estava acumulando muito dinheiro nos bancos e ele me pedia para comprar casa e terrenos. Como de fato comprei casas, terrenos muito bons. Foram todos comprados com dinheiro que o povo dava. Os romeiros. E temos muitas obras que foram feitas com dinheiro dos romeiros. Inclusive o Santuário e o lar São Vicente.
P – Ele se dava bem com o prefeito da época? Ou eles viviam brigando.
R – Com o prefeito ele não brigava. Era uma pessoa muito boa. A prefeitura ajudava nas obras com uma parte de 30 %, o resto era dinheiro dos romeiros.
P – Nos últimos anos da vida do Padre Donizetti ele estava muito doente? De que ele morreu?
R – Estava doente. Ele baqueou muito. Ele morreu talvez seja do coração. Em 1955, foi quando ele parou de dar as bênçãos, em 30 de maio, ele suspendeu as bênçãos todas. Ele ficou cinco meses sem atender ninguém. E todos os dias tinha movimento. Eu disse a ele para colocar um horário para atender o pessoal, já que vinha muita gente de longe. Sugeri até que ele colocasse medo nas pessoas. Que desse a benção e dissesse para eles voltarem para suas casas, para não correrem o risco de terem doenças. Ele disse que não queria isso para não aumentar as romarias outra vez. Mas até o dia dele morrer, ele dava a benção às oito da manhã e às quatro da tarde. E às quatro da tarde não dava mais tempo para as pessoas irem embora.
P – Ele falava muito de Nossa Senhora?
R – Ele era muito devoto. Ele veio para cá e quando fazia uns anos, queimou a matriz de Santo Antonio. A imagem de Nossa Senhora não queimou nem o manto. Apesar de que chegou um sujeito da cidade ai e quando o fogo tava queimando os caibros, o telhado, tudo caindo, ele entrou lá dentro, pegou a imagem de Nossa Senhora Aparecida e saiu correndo. Quando chegou na porta da igreja ele não aguentou o calor e jogou ela no jardim. Não queimou o manto e não quebrou a imagem.
P – Quem entrou lá dentro?
R – Esse sujeito. Mas ele era meio atrapalhado, pois se fosse uma pessoa normal não teria entrado no meio daquilo lá tudo. Mas aquilo já era um milagre. Uma pessoa entrar dentro do fogo, dentro de uma igreja que estava caindo tudo.
Outra história sobre a santa era que um dia o tempo estava nublado. Mas não estava de chuva. Ainda há três pessoas que comprovam isso. A procissão saiu com a imagem. Aí caiu uma chuva forte. Quem estava na procissão não se molhou. Só molhou os calçados, pois a enxurrada era muita.
P – Por que ele foi embora de Vargem Grande?
R – Um repórter da Globo disse que ele saiu corrido de lá. Que o povo expulsou ele de lá. Mas não foi isso. Os fazendeiros eram contra ele. Eu não estava lá, mas meus parentes, tios e meu irmão, assistiram isso em Vargem Grande. Marcaram um dia de colocar ele num animal e soltar esse animal pelos campos. Esse dia ele não dormiu. Ficou a noite toda na rua passando em frente à porta dos inimigos que ele tinha. Mas ninguém mexeu com ele.
O bispo de Ribeirão Preto mandou várias cartas pedindo pra ele sair de Vargem Grande, dizendo que ele tinha inimigos lá. Porque ele defendia os pobres. Os inimigos dele eram os bilionários de lá. Os coronéis. Mas ele não queria sair de lá.
Ele teve um sonho, que me contou. No sonho ele ouviu uma voz que disse pra ele sair de Vargem Grande. E nós tínhamos um padre aqui que foi para Portugal e disse que não iria voltar mais. Ai o senhor bispo mandou um telegrama pro Padre Donizetti dizendo pra ele vir para Tambaú, que a paróquia estava desocupada. No outro dia ele saiu de noite de lá e quando amanheceu ele já estava aqui.
P – Aqui era diocese de Ribeirão Preto? Como chamava o bispo?
R – Era sim. Chamava-se Dom Alberto.
P – O que restou para Tambaú do Padre Donizetti? Valeu a pena essa passagem dele por aqui?
R – Muitos ainda pedem para ele. São devotos de Padre Donizetti. E mesmo na parte financeira da cidade ainda tem muita gente que vive das romarias.
P – Quantos habitantes tinham na época que o Padre Donizetti veio para cá?
R – Em 1926 Tambaú estava com uns três mil habitantes na cidade. Uns cinco mil no total. Hoje a cidade está beirando uns vinte mil.
P – O Padre Donizetti ajudou o Pedro Geraldo Costa na política? Ele pediu para o Pedro Geraldo se candidatar?
R – Sim, para vereador em São Paulo. E eu estava junto quando ele disse isso. Pedro Geraldo disse que não tinha muita vocação. O Padre disse que garantiria aqui. Quando vinha gente ele dizia que em São Paulo tinha um mocinho muito bom, que era para dar um votinho pra ele. E isso era todo dia.
E ele ganhou. Foi o vereador mais votado de São Paulo, em 1957. Depois ele se candidatou para deputado e o Padre deu uma mão também.
Ele tem um disco da benção do Padre. Padre Donizetti não deixava ninguém gravar a benção. Ele só deixou o Pedro Geraldo Costa gravar para a rádio Nacional.
Na próxima entrevista: as irmãs Vera, Maria e Constança Sandoval.
sábado, 23 de maio de 2009
As palavras de Donizetti na Última Benção - 30 de Maio de 1955
"Caríssimos amigos, caríssimos irmãos. Sentirme-ei naturalmente confundido se me considerarem aquele objeto de tanta consideração de pessoas tão distintas na representação de São Paulo, Santos e também de Tambaú. Entretanto é preciso que se diga: sempre fugi durante toda a minha vida de receber manifestações que me provocassem naturalmente vaidade ou orgulho, que eu nunca tive em minha vida.Por esta razão eu ontem e anteontem, sabedor da extensão de tantos amigos, li em dois jornais lá de São Paulo as manifestações que deveriam fazer a mim por parte do povo de Tambaú, na igreja. Proibi, como sempre tenho proibido, manifestações a mim.
Tudo considero vindo de Deus e da Sua palavra, na medição que faço nos evangelhos, na vida, visando o ensino e o exemplo.
O ensino, sentindo o que sentiam os Apóstolos, no dizer de Nosso Senhor Jesus Cristo: vocês meus apóstolos, saiam pelo mundo, batizem; na pregação evangélica não se preocupem com o que vão dizer, porque quem que fala é o Divino Espírito Santo. Vocês naturalmente se expressam com os lábios, com os vossos pulmões, com que há de literário na própria pessoa de cada um de vocês.
Não tenho me preocupado com o Novo ou Velho Testamento, pois sem me preocupar com o que digo, espero, como sempre esperei, a inspiração natural do Divino Espírito Santo, para aqueles que trabalham todo integro para Deus Nosso Senhor.
Os meus afetos têm sido sempre para a religião católica, procurando sempre obedecer aos meus superiores hierárquicos, o que pretendo sempre, até o momento de exalar o ultimo suspiro que é a despedida que terei que fazer como todos fazem neste mundo, fechando meus olhos tranquilamente para abri-los para toda a eternidade, na contemplação da presença de Deus Nosso Senhor, a quem tenho servido, sirvo e servirei; enxergando na pessoa de cada um dos meus superiores hierárquicos, daqui até Roma.
É nessa condição então que, falando nesse momento, agradecendo o que vem para mim, considero para Deus Nosso Senhor.
Não é preciso que encaminhe porque nem sei, intelectuais que são, naturalmente, se dirigem a Deus na minha pessoa.
Esta saudação tão bem feita, tão sincera, tão do fundo do meu coração na vibração da cintilação da alma de cada um, vem representando perfeitamente o sentimento católico de cada um, pois bem, pedindo a Deus Nosso Senhor para cada um dos presentes e para todos os seus e suas respectivas famílias.
Isso é natural, Deus lhe sirva da forma de uma benção que é a prece que eu faço a Deus, tendo como apoio Nosso Senhor Jesus Cristo que lá no céu, tem ao seu lado Maria Santíssima, sobre nobilíssimo titulo de Nossa Senhora da Aparecida, desta forma então dando a benção.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Cerimônia Oficial encerra etapa diocesana do Processo de Beatificação
Após a celebração da santa missa, na esplanada do Santuário Nossa Senhora Aparecida, o encerramento do Processo de Beatificação continuou dentro da igreja (foto), com a cerimônia oficial, restrita à religiosos, autoridades, imprensa e convidados, já que o espaço não acomodaria a grande quantidade de pessoas que estava na praça.
A cerimônia contou com a presença, na mesa principal, do Reverendíssimo Bispo Diocesano Dom David Dias Pimentel; da Notária Atuária Dra. Ana Lúcia Ferreira Frigini; do Promotor de Justiça, Monsenhor Augusto Alves Ferreira e do Juiz Delegado, Padre Celso Abreu de Jesus. Esteve também presente o Postulador do Processo, Frei Paolo Lombardo.
Restos mortais de Donizetti foram expostos à população
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Encerramento Brasileiro do Processo de Beatificação do Padre Donizetti aconteceu neste sábado
Após um ano termina restauração do altar original da Igeja São José
Às vésperas do encerramento do Processo de Beatificação - etapa diocesana - do Padre Donizetti, que aconteceu neste sábado, dia 16, o altar foi transferido da Casa do Padre, onde ficava, para o Santuário Nossa Senhora Aparecida.
Todo o processo de restauração foi doado pelo profissional, em agradecimento a uma graça que alcançou do Padre Donizetti, segundo ele, há 10 anos.
Delsin afirma que uma viga do altar chamou sua atenção. Trata-se de um Pinho de Riga, madeira de origem inglesa que o restaurador calcula ter aproximadamente 217 anos.
Ele trabalha com restauração de móveis barrocos há 43 anos e para a recuperação do altar contou com o auxílio da tambauense Ana Cláudia Oliveira.
Funcionários montam o Mausoléu de Padre Donizetti
O mausoléu foi instalado do lado direito de quem entra no Santuário e é confeccionado em mármore preto com escritos em dourado.
No sábado, os restos mortais do sacerdote foram mostrados à população em uma caixa de acrílico. Em seguida, essa caixa foi colocada dentro de outra, feita em madeira, utilizada no traslado. Está sim foi instalada dentro do mausoléu.
Padre Anderson realiza coletiva para falar sobre a exumação
Depois da grande especulação que tomou conta da cidade de Tambaú, na sexta-feira, dia 08 de Maio, sobre a exumação dos restos mortais do Padre Donizetti Tavares de Lima, o reitor do santuário Padre Anderson marcou para o mesmo dia uma coletiva (foto), reunindo a população e a mídia, para um pronunciamento e esclarecimento sobre as questões relacionadas ao fato.Segundo o reitor, o sigilo sempre fez parte do Processo. A exumação ocorreu na madrugada de sexta-feira, 08, com início à zero hora, com o juramento das poucas pessoas que puderam participar, dentre elas: autoridades religiosas que compõem o Tribunal Eclesiático, autoridades civis constituidas, coveiros e pedreiros contratados para realizar o serviço. Em seguida foram feitas orações e a exumação do corpo, sepultado no Cemitério Municipal desde 17 de junho de 1961, tendo os trabalhos terminados por volta das 06horas e 30minutos.
O procedimento da exumação foi realizado legalmente em conformidade com a legislação em vigor, após autorizações do Meritíssimo Juiz da Comarca de Tambaú, do Bispo Diocesano e dos sobrinhos do Pe. Donizetti.
Apesar do decurso do tempo e das condições úmidas do solo, a exumação foi feita no melhor momento, pois os ossos apresentavam boas condições de conservação. A exumação poderia ser realizada agora ou no final do Processo de Beatificação. Foi decidido pela realização nesse momento pelo fato do custo ser menor.
domingo, 26 de abril de 2009
Páginas da História - A Defesa - 30 de Março de 1955
“Inicialmente fomos informados de que o Pe. Lima, prodigalizará sua benção só até o dia 30 de Junho próximo, depois do que se recolherá a lugar ainda não determinado. Outro pormenor é de que não mais o pároco atende para benção particulares, abençoando a todos coletivamente, duas vezes ao dia, sendo a 1ª vez pelas 9 horas da manhã, e a segunda às 20 horas. (...) Continua o sacerdote a receber a visita de ilhares de peregrinos, sendo que, só pela manhã, no dia dessa semana, fomos informados, haviam passado pela Casa Paroquial, nada menos de 20.654 romeiros, na expectativa de um milagre. (...) Na ocasião em que foram recebidos os srs. Javarone e Gobo (Comissários de Menor de Campinas que relataram os fatos ao jornal), estava presente (...) o sr. José Gatto, presidente da Câmara Municipal de Tambaú”.
Outras notícias do mesmo exemplar:
- “Candidatura Militar não faria frente a Kubitschek.”
- “João Goulart teria insistido com Jânio a aceitar a candidatura”.
Páginas da História - Correio Paulistano - 24 de Março de 1955
Em Tambaú, ao que se diz, há no momento, 27 “retratistas”, vindos temporariamente, de Aparecida do Norte.
O Comércio de objetos religiosos tomou, é óbvio, incremento extraordinário. No início, dizem, houve larga exploração. Mas não durou muito, pois, padre Lima advertiu-os publicamente que não toleraria tal estado de coisas e que iria pedir providências às autoridades competentes para que punissem com energia os infratores das leis. “
Outras notícias do mesmo exemplar:
- “Faleceu ontem o ex-presidente Arthur Bernardes”
- “Convulsa a política inglesa com o possível afastamento de Winston Churchill do governo”.
Anúncio publicitário no jornal, nesta mesma data:
- “Hoje! PRK-30 com Lauro Borges e Castro Barbosa. Agora na Rádio Nacional às 5ª feiras às 21 horas”.
Páginas da História - Correio Paulistano - 17 de Março de 1955
“O Padre Donizetti não é nenhum santo e não fez milagres, e timbra, constantemente, em seus sermões, em alertar os fiéis para que não interpretem enganosamente a sua missão, que é apenas ser instrumento da vontade de Deus, que, repetidamente, vem evidenciando em Tambaú, a Sua misericórdia, pelos grandes milagres ocorridos (...)
E foi então que o “Correio Paulistano”, desejando informar fielmente os seus leitores, enviou-me a Tambaú. (...) Em primeiro lugar entrei em contato com o sr. Nicolau Torelli, com quem passei a examinar as declarações dos que alcançaram graças. Desde logo informou que o total das declarações é de 176. “
Outra notícia do mesmo exemplar:
- “Seis horas para um telefonema entre Santos e S. Paulo”.
sábado, 25 de abril de 2009
Páginas da História - Correio Católico - 14 de Março de 1955
O CORREIO CATÓLICO de Uberaba – MG, traz duas manchetes alertando para os acontecimentos no interior do Estado vizinho: “Fatos Prodigiosos Abalam uma Cidadezinha Paulista” e “Um Sacerdote Piedoso Abala o País”.O corpo do texto trazia o seguinte relato: “No dia 9 do corrente um moça de Uberaba (senhorita Iolanda Vilas Boas, residente à rua Marechal Deodoro) foi testemunha de um acontecimento desta natureza. Três pessoas – é ela própria que nos conta – em meio à pequena humanidade ali reunida, puseram-se a gritar, quase ao mesmo tempo, dizendo-se libertas das doenças que lhe afligiam”.
Outras notícias do mesmo exemplar:
- “Derrotado candidato de Jânio Quadros. Eleito Franco Montoro para a Assembléia Paulista”
- “No Maranhão, quando fazia propaganda política, tendo a bordo o locutor Carlos fRias, foi acidentado o avião de Assis Chateaubriand, que ficou destroçado. O locutor e piloto nada sofreram”.
Anúncio publicitário no jornal, nesta mesma data:
- “Vasp – Uberaba – São Paulo – Rio: Diariamente às 8.30”

