sábado, 7 de fevereiro de 2009

Aquela Sexta-Feira de 1929


“A história é um conjunto de variáveis”, afirma John Parker. E segundo o dicionário Michaelis, “variável” é algo sujeito a variações, inconstante, mudável. Conclui-se daí que, se seguirmos o ponto de vista de Parker: a história muda.

E estamos falando de história no sentindo literal, histórico. Ou seja: o que existiu, o que aconteceu, o que seria, na teoria, imutável. E não variável.Mas também estamos falando de décadas e décadas de pouca informação, restrições tecnológicas, gerações se sucedendo e contando, à sua maneira, a sua história. Como um enorme e atemporal “telefone sem fio”.


E é daí que nascem as lendas, os mitos, a crença popular e a nova verdade. Até que, entretanto, as variáveis se afunilam e, através de documentos e relatos, tornam-se novamente: a história.


Toda essa introdução para prefaciar as conclusões da minha própria pesquisa sobre um fato ocorrido há mais de oitenta anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1929: o Incêndio na Matriz de Santo Antônio.


A edição nº 1068 do Jornal “O Tambahú” de Domingo, 13 de Outubro de 1929, traz em sua última página a notícia intitulada “Incêndio na Matriz”.


Vou reproduzir aqui trechos da matéria. E como reforma ortográfica está novamente em moda, manterei a forma e grafia com que foi redigida na época:


“Pela manhã de ante-hontem foi o povo desta prospera cidade tristemente suprehendido em seus affazeres pelo subitâneo incendio da Igreja de Santo Antonio, matriz desta parochia. As 8 horas da manhã, pouco mais ou menos, corria pela cidade a lamentável noticia, tendo o povo acorrido em massa, dirigindo-se para o local; porém, pela escassez d’agua e falta de appareihamento adequado a extincção de incendios, nada conseguiu fazer, pois o fogo já era intenso; embora transportando água em latas das casas vizinhas e por meio de caminhões, foram apenas salvos duas imagens pequenas e outros objectos do culto, sendo o mais devorado pelas chammas e restando apenas as paredes da referida matriz”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).


Deste trecho podemos destacar duas informações: a primeira é o horário do início do incêndio – por volta das oito horas – dado já assinalado pelo Padre Donizetti Tavares de Lima, no livro Tombo nº 2 da paróquia, à página 48 que traz exatamente o seguinte texto: “A onze de outubro deste anno de mil novecentos e vinte e nove, às 8 horas da manhan, quando precisamente o vigário celebrava missa na egreja São José, sita no Patrimônio, dava-se o pavoroso incendio que fez arder completamente a egreja Santo Antonio, matriz local. Estava ella confiada a Ernesto Rissardi e empregados, para limpeza e reparos externos, trabalho que custou uns treze contos de reis. Examinados os destroços, paredes, fios queimados, por um technico competente, foi constatado que teve por origem um curto-circuito. Nada se poude fazer em favor da parocchia em vista de natural proteção das autoridades locais à Companhia Força e Luz São Valentim.”


A segunda e intrigante informação é a frase “foram salvos duas imagens pequenas”. Até então tínhamos como certo apenas o salvamento da imagem de Nossa Senhora. O jornal “O Tambahú”, no entanto, não denomina quais eram as imagens.


Apenas como curiosidade, acrescento aqui, antes de entrar em outros detalhes, mais um trecho da referida matéria:


“Conforme fomos informados, o prejuízo monta em cento e cincoenta contos de reis aproximadamente. O commercio desta cidade permaneceu fechado e diversas fabricas suspenderam os serviços durante esse dia, em signal de pezar”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).


Quando resolvi aprofundar um pouco este assunto fui até a biblioteca municipal procurar no arquivo do jornal “O Tambaú”, que está sendo reorganizado, a edição que relatava o incidente na Matriz. Não encontrei o exemplar naquela ocasião, apenas semanas depois.Os exemplares de 1929 foram encadernados e estão guardados em outro local até que a biblioteca tenha um local adequado para o armazenamento e conclua a encadernação dos demais exemplares.Há poucos dias, pesquisando também o acervo do Museu Histórico “Ernesto Ricciardi” – igualmente passando por uma reorganização – encontrei recortes de um exemplar do jornal “A Ordem – Órgão do Partido Republicano de Tambahú” que, confesso, não sabia que existia.Com redação à Rua Santo Antonio, nº 10 e sob direção de Antonio de Almeida Santos Sobrinho, a edição nº 140, de 13 de Outubro de 1929, traz como manchete “Matriz de Santo Antonio – Pavoroso Incendio destroe o Bello Templo da Cidade”.


A exemplo do anterior, reproduzo aqui trechos da matéria com a grafia original:


“Pelas sete e meia, mais ou menos, da manhan de sexta-feira ultima, 11 do corrente, uma notica pungentíssima sacudia a população local: a nossa matriz era presa de um incêndio.A essa hora, de facto, muita gente já havia observado, à distancia, a ascensão de grossos e negros rolos de uma fumaça, pelas immediações do Largo de Sto. Antonio, mas sem nunca suppor que tremenda catastrophe se realizava.Entretanto, a nova acabrunhadora célere se foi propalando. Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso. Finda a cerimonia seguiu, sem perda de tempo, para a igreja sinistrada, em cujas proximidades a multidão, que accorrera aos primeiros rebates, pronta a prestar auxílios, assistia, estupefacta, ao seu desmoronamento. É que já era impossível qualquer esforço: o fogarêo, pressentido tarde demais, já havia assoberdado o templo. Inútil qualquer tentativa”. (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).


Destaco uma citação deste trecho: “Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso”.Portanto, segundo este jornal, publicado dois dias após o fato, Padre Donizetti estava celebrando na Igreja São José quando ocorreu o incêndio, fato também confirmado pelo relato do livro Tombo.Continuemos acompanhando a notícia, em um trecho que, se não muda a história como a conhecemos, acrescenta elementos importantes:


“Alguns abnegados, porém, em lances heróicos, vencendo as chammas, haviam lhes arrebatado a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera, há 40 annos, destinada à capellinha construída pelo Cap. David de Almeida Santos, há tempos demolida; e, bem assim, a imagem, também pequena, de Nossa Senhora d’ Apparecida, milagrosa padroeira do Brasil, e alguns paramentos.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).


O trecho cita alguns “abnegados”, palavra que define “o que se sacrifica desinteressadamente por alguém ou alguma coisa”. Nota-se que são citados no plural, portanto mais de uma pessoa teria entrado na igreja em chamas para salvar as imagens, também no plural.


Sobre a imagem de Nossa Senhora não é preciso acrescentar nada, tamanha a sabedoria popular e relatos posteriores existentes. Segundo esses próprios relatos, de pessoas com mais idade, de historiadores e pesquisadores, um desses “abnegados” teria sido o senhor Ângelo Latari, fato confirmado por sua viúva Ana Silva Latari, hoje com 95 anos, residindo em São Paulo e completamente lúcida.


Respondendo a questão 5.20 do primeiro “Questionário para Testemunhas” elaborado pelo então postulador Padre Dante Donzelli e pelo colaborador José Wagner Azevedo (em 8 de Setembro de 1993) onde se perguntava “que detalhes V. Sa. sabe sobre o incêndio da Igreja Matriz de Santo Antônio?” e “Qual foi o comportamento do Padre em relação a este acontecimento?”; Vera respondeu da seguinte forma: “Ele ficou muito abalado com o incêndio. A igreja estava se queimando e o povo estava assistindo sem poder fazer nada. O senhor Ângelo Latari entrou pelo lado da igreja, em meio as chamas, arriscando a vida, e retirou a imagem de Nossa Senhora, sem sofrer nenhum arranhão”.
A matéria do jornal “A Ordem” cita ainda “a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera”, que também teria sido salva pelos corajosos homens. Orago é uma palavra do português europeu que significa “padroeiro”.


Concluímos então, não por dedução pessoal e sim pelo relato da imprensa publicada dois dias depois do incêndio – a exemplo de hoje, os jornais eram publicados semanalmente – que duas imagens foram salvas do incêndio.


Atente para o fato do primeiro jornal (O Tambahú) citar isso: “foram apenas salvos duas imagens pequenas” e do segundo (A Ordem) relatar inclusive quais foram elas.


A imagem de Nossa Senhora está hoje de posse da Paróquia do Santuário Nossa Senhora Aparecida, construído justamente “para a conservação da milagrosa imagem”, conforme edital que teria sido publicado pelo Padre Donizetti em 1946 (informação descrita na revista Monografia Brasileira – Tambaú, pág. 7, em 1964).


A imagem de Santo Antônio, que igualmente teria sido salva do incêndio e, claro, confirmando-se ser a mesma em questão, estaria sob responsabilidade de uma família, não citada aqui por questões éticas, desde a década de 60 ou 70, por ordem do então pároco Padre Luis Girotti.


“A população, compungida, contemplava a tudo aquilo com lágrimas nos olhos. Durante todo o dia foi intensíssimo o movimento no Largo Santo Antonio e muitos foram os commentarios a respeito do sinistro cuja causa, até a hora em que traçamos estas linhas, não estava ainda perfeitamente averiguada (...) Attendendo ao appelo do Prefeito do município, o comercio cerrou as portas, em manifestação de pesar, assim que foi divulgada a catastrophe e, pelo mesmo motivo, a empresa do Cine Royal suspendeu o espectaculo desse dia.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).


Outra edição do Jornal “O Tambahú”, em 24 de Maio de 1931, sob o título “As Obras na Matriz”, já fala da reconstrução e cita o trabalho de dois homens: Ângelo Latari (“Chamam-nos. É o Angelo Lattari. Estende-nos sorridente a mão. Convite amável: - Não quer ver como vão adiantadas as obras na Matriz?”) e Ernesto Ricciardi (“No alto, sobre os andaimes da capella-mór, o Ernesto Ricciardi pincelava”). 


Esta matéria não tem nenhuma intenção de reverter fatos, provocar polêmicas, desconstruir crenças ou denegrir o que quer que seja. E muito menos de alterar, apesar do pleonasmo, as variáveis da história.


Tem sim o objetivo de trazer ao conhecimento de todos, mais de oitenta anos depois, detalhes curiosos de um acontecimento que, hoje sabemos, mudou para sempre a história de uma cidade, confirmando a fé de um povo, a bravura de tambauenses, a santidade de um sacerdote e o poder de Deus, materializado em centenas de milhares de milagres que se sucederam àquela manhã de sexta-feira de 1929.




No livro “Padre Donizetti de Tambaú”, de José Wagner de Azevedo, há o relato de Maria do Rosário Meirelles que descreve “Havia acabado a missa da Igreja São José, lá pelas 8:00 h. Era um dia de semana. Aparecida Resende, Mariquinhas Resende, o Padre e eu saíamos da Igreja. Vimos ao longe o incêndio da Igreja Santo Antônio. (...) Alguém pega o Padre de carro e o leva rapidamente para o local do incêndio. Eu subi, a pé, apressadamente com as companheiras. A igreja fumegava. A fumaça saía pela torre. O Ângelo Latari salvou a imagem de Nossa Senhora Aparecida.”

Outra confirmação deste nome dá-se através do relato da senhora Vera Parreira Sandoval, falecida há cerca de um ano, em seu depoimento ao Processo de Beatificação do Padre Donizetti.

Paulo Rogério B. Rocco

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Morte de Donizetti

Depois de interromper as romarias, Padre Donizetti volta à calma antiga, após sete meses em que deu sua bênção a mais de quatro milhões de pessoas.
Tambaú mergulha na paz, como em outros tempos. As ruas não precisam mais serem varridas duas ou três vezes por dia. A dedetização diária não precisa mais acontecer. Milhões de cartas continuam chegando do mundo todo.
O vigário proíbe manifestações a ele, dizendo que todos os milagres vêm de Deus e de Nossa Senhora.
Depois de trinta e cinco anos de intensa atividade, a saúde do vigário de Tambaú começou a se debilitar. Padre Donizetti já não celebrava. Monsenhor Davi, da nova diocese de São João da Boa Vista, à qual Tambaú veio a pertencer, passou a visitar Tambaú aos sábados, domingos e dias santificados, para os serviços paroquiais da cidade. Era o início do fim.
Onze horas e quinze minutos do dia 16 de junho de 1961. Naquele momento o silêncio parecia ter a intensidade de uma sinfonia mágica, executada num órgão de tubo, em uma capela na lembrança de milhares de pessoas. O Padre Donizetti estava morto.

A Última Benção

Hoje foi o último dia das bênçãos do padre Donizetti Tavares de Lima. Houve, como de costume, uma benção às 9 horas, por ocasião da qual o sacerdote reafirmou seu propósito. Durante toda a manhã, esquadrilhas de aviões da base aérea de Cumbica e de Santos sobrevoaram a cidade, realizando acrobacias em homenagem ao padre Donizetti.
A benção das 12 horas sofreu um atraso de quase duas horas, pois circulara na cidade notícia, procedente de Casa Branca, segundo a qual o governador Jânio Quadros estaria a caminho desta localidade, a fim de receber, ele também, a milagrosa benção. Por fim, às 14 horas, foi desmentido o boato e o padre se dirigiu à multidão que se comprimia na praça, em frente da Casa Paroquial.
A última benção - Às 20 horas teve lugar a última benção. Foi um espetáculo impressionante. Os peregrinos - muitos deles encarapitados nas árvores e nos telhados das casas que circundam a praça da igreja - choravam emocionados. Milhares de velas acenderam-se de repente, oferecendo um espetáculo verdadeiramente feerico.
Em rápidas palavras dirigidas aos romeiros, o padre Lima afirmou o seguinte: "Hoje é o último dia. O último dia para todos, indistintamente, desde o rico ao pobre; o último dia para os humildes e para os poderosos. Nem o homem mais poderoso do mundo quebrará esta minha decisão. Entretanto, recolhendo-me à solidão da cela, não deixarei de dar a benção todos os dias, às 9 e às 20 horas a quem quer que dela necessite, em qualquer parte do mundo. Bastará que nessas horas, a pessoa que deseje a benção pense em mim. Será esta a continuação - embora sem testemunhas - da obra que venho realizando. De amanhã em diante não receberei mais ninguém, quer seja para bênçãos especiais, quer para bênçãos coletivas".
"Motivos superiores" - Apesar de toda a dificuldade encontrada, este repórter conseguiu avistar-se ligeiramente com o padre Donizetti Tavares de Lima, dele ouvindo que sua decisão fora motivada por "motivos elevados". O padre declarou também que não se afastará de Tambaú. Quanto à proposta apresentada na Assembléia pela deputada Conceição Costa Neves, disse: "Considero terminada hoje a série de bênçãos públicas especiais. Não irei a São Paulo a nenhum outro lugar para distribuir bênçãos. Já solicitei a amigos meus que impeçam a vinda da comissão de deputados para cá, pois não poderei atender a esse pedido. Hoje, às 24 horas, terminará o dia 30. Afirmei que este seria o último dia e realmente será. O padre Donizetti só tem uma palavra!"
Interrogado sobre se a fadiga teria influído em sua decisão, ele respondeu: "Declarei que se tratava de motivos elevados e isso não significa nem motivos superiores nem esgotamento. Aliás, não estou cansado".
Realmente podia-se notar que, afora ligeira rouquidão em sua voz geralmente estentorica, o padre continuava firme como sempre.

PADRE DONIZETTI: ENCERRADAS ONTEM AS BÊNÇÃOS EM TAMBAÚ
Publicado na Folha da Noite, terça-feira, 31 de maio de 1955

Rosas sobre Tambaú

Dia 22 de maio de 1955.

Tambaú é palco de um dos mais belos, inéditos e grandiosos espetáculos do mundo. Uma chuva de pétalas de rosas cai sobre a cidade, mais precisamente sobre o bairro conhecido como Patrimônio, onde ficava a Igreja de São José e a Casa Paroquial, onde morava o pároco da cidade e o homenageado pelas pétalas perfumadas que caiam do céu: Padre Donizetti Tavares de Lima.
Naquele dia, o Sacerdote com sua indefectível batina negra, sai à janela de sua casa e profere as seguintes palavras: “Hoje é o último dia para todos, indistintamente, desde o rico até o pobre. O homem mais poderoso não quebrará esta minha decisão”.
Estava terminado, Padre Donizetti encerra, por vontade própria, as já mundialmente famosas bênçãos miraculosas, que duraram sete meses, onde o pároco de Tambaú deu sua bênção a mais de quatro milhões de pessoas.
Desde Março de 1954, a fama do Padre Donizetti se espalhou por toda parte. As romarias para Tambaú eram a maior revolução espiritual que um povo, que uma cidade, jamais sofrera.
As pessoas com melhores condições financeiras viajavam de avião para Ribeirão Preto ou Campinas e depois seguiam para Tambaú em carros, ônibus e trem.
Quarenta mil pessoas formavam procissões de um quilômetro de extensão que caminhavam até a praça dos milagres. E estes se sucediam pelas ruas da cidade: paralíticos, surdos, mudos, cegos, tuberculosos, cancerosos, portadores das mais estranhas doenças; desiludidos, desenganados pela ciência, restabeleciam-se completamente.
Deixou de existir a até então chamada Tambaú “Cidade das Chaminés Fumegantes” para se transformar na “Cidade dos Milagres”.
Os romeiros dormiam em alpendres e nas ruas. Moradores locais distribuíam água nos portões das casas. Cada gole era disputado como se fosse o último.
E esta multidão foi uma das principais razões da decisão tomada por Padre Donizetti: a cidade não comportava mais tanta gente pelas ruas. Faltava comida, a água era insuficiente, não havia mais lugar para se descansar, as ruas precisavam ser dedetizadas diariamente para evitar a propagação das doenças.
A praça da igreja São José ficava em absoluto silêncio quando aquele homem subia ao altar para celebrar a missa ou dar a benção da porta de sua casa.
E naquele 22 de Maio, o silêncio rompeu-se em uma saudação de milhares de almas, representadas por cada uma daquelas pétalas que forraram as ruas de paralelepípedos da pequena cidade do interior de São Paulo.
E como viríamos saber, alguns anos depois, as palavras de Padre Donizetti, concluindo a mensagem sobre sua última benção, tornaram-se proféticas:
“Entretanto, recolhendo-me à solidão da cela, não deixarei de dar a benção todos os dias, às nove e às vinte horas, a quem quer que dela necessite, em qualquer parte do mundo. Bastará que nessas horas as pessoas que desejarem, façam um pedido e pensem em mim”.
E todos foram e continuam sendo atendidos.

O Início dos Milagres

Um vendedor de vinho, da cidade de Poços de Caldas, procurou o Padre Donizetti. Ele vinha sofrendo de um sério problema nos joelhos, uma espécie de reumatismo. A doença começava a impedí-lo de andar normalmente. Sem esperanças da medicina, o vendedor marcou um encontro com o vigário de Tambaú. Permaneceu por duas horas na Casa Paroquial e retornou do mesmo jeito para a cidade mineira.Na viagem de volta, no meio do caminho, pediu para que parassem o carro. Ele saiu e caminhou normalmente pela estrada. Suas fracas pernas ganharam força novamente. Padre Donizetti teria realizado o milagre. Era março de 1954. O início.Daqueles dias em diante, a fama do Padre Donizetti se espalhou por toda parte. As romarias para Tambaú eram a maior revolução espiritual que um povo, que uma cidade, jamais sofrera.Quarenta mil pessoas formavam procissões de um quilômetro de extensão que caminhavam até a praça dos milagres. E estes se sucediam pelas ruas da cidade: paralíticos, surdos, mudos, cegos, tuberculosos, cancerosos, portadores das mais estranhas doenças; desiludidos, desenganados pela ciência, restabeleciam-se completamente.A praça da igreja São José ficava em absoluto silêncio quando aquele homem subia ao altar para celebrar a missa ou dar a benção da porta de sua casa. E os milagres continuavam a acontecer.

A Vida em Tambaú

Em 1909, durante uma audição onde Donizetti tocava piano na residência de uma família amiga, algumas moças presentes naquela noite elogiaram os cabelos negros e compridos do novo padre. Na manhã seguinte, o vigário de Vargem Grande do Sul, então com vinte e sete anos, apareceu na Casa Paroquial com os cabelos podados à máquina.
Padre Donizetti instruía o povo da cidade como deveriam votar, com consciência e sabedoria. Assim acabava por decidir os destinos políticos das comunidades.
Na tarde de 12 de junho de 1926, Padre Donizetti Tavares de Lima tomou posse como vigário da Paróquia de Santo Antônio, em Tambaú. A pequena cidade do interior de São Paulo já era conhecida por sua indústria cerâmica.
Padre Donizetti mudou costumes. As mulheres passaram a usar o manguito para assistirem às missas. Manguito era uma espécie de luva que cobria quase o braço todo. E tradicionais famílias da cidade chegaram numa das primeiras missas celebradas pelo novo vigário não tendo mais seus bancos particulares, como era costume na cidade.
O vigário encomendou uma imagem de Nossa Senhora à cidade de Aparecida, e sobre esta imagem há uma história estranha para se contar. O ano era 1929. No dia 11 de outubro a igreja matriz, na Praça Santo Antônio, estava em chamas. Todas as outras imagens foram reduzidas a cinzas, com exceção daquela de Nossa Senhora. O tambauense Ângelo Latari entrou por entre as chamas e conseguiu retirar a santa antes que o teto desabasse, sem sofrer nenhum arranhão. Para muitos foi um dos primeiros milagres do Padre Donizetti.
No ano seguinte, outro fato insólito teria acontecido. Durante uma procissão em homenagem à Nossa Senhora Aparecida, o tempo escuro parecia anunciar um temporal muito forte. Teria começado a chover, mas as pessoas que estavam na procissão não se molharam. Segundo testemunhas, a chuva parecia seguir a caminhada, caindo depois que as pessoas passavam.
Apesar desses acontecimentos a vida na cidade de Tambaú continuava como sempre havia sido. O sacerdote proibiu o carnaval definitivamente. Fundou o Círculo Operário, uma espécie de sindicato dos ceramistas e o asilo. Deu início às atividades de uma banda de música, da qual ele próprio era o maestro.
Seus argumentos eram imbatíveis. Sabia o que dizia e como falava. Conversava vulgarmente nas esquinas e debatia sobre clássicos e filósofos em sua casa. Chegou a estudar radiestesia, a ciência dos pêndulos.
O homem que iniciara o asilo, abrigando famílias e velhos em pequenos chalés, começou a impressionar as pessoas que o cercavam. Até mesmo pequenos acidentes, que faziam parte da rotina dos trabalhadores das cerâmicas, pareciam não mais existir em Tambaú.
Há quem jure que desde que Padre Donizetti se mudou para a cidade, ninguém mais morreu devido a picadas de cobras na zona rural, o que era comum na época. Seu trabalho em obras assistenciais e seu amor pela música, passaram a conviver lado a lado com evidências e fatos quase inexplicáveis.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Breve Biografia do Padre Donizetti

Donizetti Tavares de Lima nasceu em Santa Rita de Cássia, Minas Gerais, em 3 de janeiro de 1882. Seu pai, Tristão Tavares de Lima, era advogado e sua mãe, Francisca Cândida Tavares de Lima, era professora primária.
Em 1886 a família mudou-se para Franca, interior de São Paulo, onde Donizetti cursou o primário e iniciou o curso secundário no Colégio “Liceu Franciscano”. Estudou música e piano com o pai.
Até 1900, o menino cursou o colégio Monsenhor João Soares, na cidade paulista de Sorocaba. Foi contratado, depois disso, através de seu amigo, bispo Dom Nery, como organista e professor do Seminário de São Paulo. Freqüentou o curso preparatório da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Após sua ordenação, em 12 de julho de 1908, Padre Donizetti é designado vigário na paróquia de São Caetano da Vargem Grande, no Estado de Minas Gerais. Quando Dom Nery é transferido para a cidade de Campinas, no interior de São Paulo, Donizetti segue para a mesma diocese, assumindo a paróquia de Jaguariúna, cidade próxima de Campinas.
Depois do falecimento de Dom João Batista Nery, Padre Donizetti é transferido para a Diocese de Ribeirão Preto, como vigário na cidade de Vargem Grande do Sul.
Era o último passo antes do homem Donizetti tornar-se um mito.
Na tarde de 12 de junho de 1926, Padre Donizetti Tavares de Lima toma posse como vigário da Paróquia de Santo Antônio, em Tambaú. A pequena cidade do interior de São Paulo já era conhecida por sua indústria cerâmica. Quarenta e três fábricas abrigavam os operários do barro.