“Toda vez que o trem apita na curva da linha, faz parada obrigatória na estação do tempo”.
(Silvio Britto)
Encerrando a série de reportagens realizadas há mais de trinta anos, tendo como tema o Padre Donizetti Tavares de Lima, transcrevo uma entrevista realizada em 22 de Julho de 1979.
Não que as outras não tivessem sido especiais e gratificantes de serem reproduzidas, mas esta tem um diferencial. O entrevistado, além de meu amigo e pessoa culta, premiadíssima em concursos literários – cujas trovas e crônicas percorrem o país – ainda vive em Tambaú, cidade que presenteou com o hino, a bandeira e o brasão oficiais.
Professor, escritor, ex-vereador, patrono da Biblioteca Municipal, entre tantas definições, Sebastião Alicio Sundfeld, ou simplesmente Professor Sebas é o nosso entrevistado.
As opiniões descritas aqui são, obviamente, da época em que a reportagem foi gravada e demonstram apenas um pouco do grande conhecimento e o carinho que este homem, nascido em Pirassununga, tem até hoje, por Tambaú e por um dos personagens principais da nossa história.
Bem vindos à esta parada obrigatória na estação do tempo.
Entrevista com Professor Sebas Sundfeld
Pergunta – O senhor conheceu o Padre Donizetti?
Sebas – Pessoalmente. Fomos vizinhos por um longo tempo e meu casamento foi feito por ele.
P – Aqui em Tambaú? Em que ano?
Sebas – Eu vim para Tambaú em 1949. Data daí a nossa aproximação maior, principalmente por causa da vizinhança. Eu vim como professor para cá. Não morava aqui. Sou de Pirassununga. Nasci em 5 de Julho de 1924. Aluguei uma casa onde é hoje o Patrimônio, do outro lado da praça.
P – O senhor é professor de quê?
Sebas – Eu sou professor de duas escolas, do Alfredo Guedes e do colégio Padre Donizetti. Eu dou aulas de desenho. Eu estou para aposentar.
P – O que mais o impressionou na vida do Padre Donizetti?
Sebas – A sinceridade. Eu sempre achei o Padre Donizetti uma pessoa muito franca, muito sincera. E isso é uma característica de honestidade. Ele não titubeava em dizer aquilo que pesava. O que levava muitas vezes a ofender uma pessoa. Mas não aquela ofensa ostensiva, de agressão. Ele dizia com franqueza, com muita ponderação. Ele tinha uma inteligência rápida, um raciocínio instantâneo. Ele apreendia de pronto aquilo que a pessoa estava expondo pra ele. E já antecipava inclusive a conclusão de onde a pessoa queria chegar. É um privilégio que poucas pessoas possuem. É uma inteligência invulgar. Tinha uma formação moral muito grande e uma formação religiosa indiscutível. E outra coisa. Tinha uma ausência de preconceito. Ele não fazia diferenças sociais. Ele se dava bem como todo mundo.
P – Ele tinha alguma predileção por alguma classe social?
Sebas – Pelos pobres. Vou contar um fato curioso: logo que eu vim para cá, houve uma reunião convocada por ele, com várias pessoas, a fim de se fazer um trabalho para angariar roupas para os pobres. Em Pirassununga, havia um “roupário” onde roupas eram arrecadadas, reformadas e doadas. As pessoas que precisavam iam até esse local, escolhiam a roupa e saíam com ela. Quem doava a roupa não sabia para quem iria e quem pegava não sabia de quem era. E eu sugeri essa idéia a ele. E a resposta, com sua voz de barítono foi: “Não é assim que se agasalha o pobre, não é assim que se ajuda um necessitado. Roupa velha joga-se fora”. Assim ele entendia o sentido de ajudar a quem necessitava. Isso demonstra o grande carinho que ele tinha pela classe proletária.
P – Ele foi taxado de comunista?
Sebas – Quando isso ocorreu, eu não residia ainda em Tambaú. Depois que eu vim para cá ouvi comentários a respeito. Mas eu poria a mão no fogo, tranquilamente, que ele nunca, jamais, teria alguma tendência comunista. O que ele era, era um homem além do período em que ele viveu. Vamos dar um exemplo: Monteiro Lobato foi preso como comunista só porque ele falou que o petróleo existia no Brasil. E na época não convinha dizer isso. Eu colocaria o Padre Donizetti na mesma posição. Quando ele dizia que o patrão tinha que ajudar o empregado, o pobre, era chamado de comunista. Essa maneira de ele expor não era compreendida para a época. Quando eu vim para Tambaú, os empregados daqui seriam confundidos com ligeiras. Com mendigos. Naquela época era bastante sacrificada a classe operária. Muitas vezes o Padre Donizetti ia à casa de ceramistas e naquela conversinha, a pé do fogão, ia expondo o caso de certos operários daquela firma e ia conseguindo do patrão aquilo que o operário estava precisando. Ele não era apenas o padre, ele era o promotor, ele era o juiz. Ele tinha autoridade moral. E isso é incontestável. Eu vim para cá, já professor, já adulto, então era um observador estranho da personalidade do Padre Donizetti. Não se pode dizer que sofri influência na infância para dizer o que estou dizendo: a autoridade dele se impunha por sua força moral e também por sua grande cultura. Ele debatia qualquer problema, entendia qualquer assunto, seja de arte, de ciência. De religião, então, nem se discute.
P – Padre Donizetti era um homem estudioso?
Sebas – Ele tinha uma vasta biblioteca. Era estudioso. O argumento dele era insofismável. Era imbatível. Ele sabia o que dizia e como falava. Isso demonstrava que ele conhecia profundamente o assunto. Ele falava vulgarmente numa conversinha de esquina, ele era um Padre que girava pela cidade. Agora se você fosse à casa dele e conversasse sobre Beethoven, sobre Bach, sobre qualquer músico famoso, ele entendia. Se falasse sobre Einstein, sobre Darwin, ele entendia. Ele era um homem que lia jornais. Estava sempre atualizado com problemas políticos e sociais. Naquela época Tambaú era geograficamente pequenino, esquecido em um canto do Estado. Hoje nós temos uma ligação fácil com São Paulo. Naquele tempo não. Era difícil sair de Tambaú. Então constituíamos aqui uma comunidade um pouco isolada. Então talvez daí, penso eu, a influência maior e a necessidade da presença dele aqui para resolver todos esses problemas políticos locais.
P – Ele se envolvia na política local, na política partidária?
Sebas – Não. Ele era amigo de todo mundo. Se ele era amigo do lixeiro negro, era amigo do prefeito branco e rico. Eu fui vereador em Tambaú na época da romaria. Eu não sou político. Fui apenas por circunstância da época. Tanto que nunca mais votei. Não gosto de política. Ele era amável ao atender as pessoas. Então se os políticos o procuravam ele recebia bem. Se fosse um “Zé-Ninguém”, também ele recebia bem. No relacionamento dele com políticos, se houvesse algum interesse “oculto”, ele poderia estar visando algum donativo. Quem não se aproxima ainda hoje, de políticos, visando um donativo para casa de saúde, para asilo? Como não tinha quem fizesse isso, essa era também uma função dele. Conseguir qualquer coisa para o asilo que ele tinha. Ele distribuía pilhas de cobertor para várias famílias. Isso eu vi mais de uma vez.
P – É verdade que ele teria dado apoio explícito ao Pedro Geraldo Costa quando se candidatou a vereador em São Paulo, através dos romeiros?
Sebas – Ignoro. Eu nunca me aproximei muito do movimento ocorrido em Tambaú, nessa época de romarias. Eu fiquei afastado, observando de longe. Vi fotografias dele ao lado de Pedro Geraldo Costa. Mas ele tirava fotografia com todo mundo. Não era assim uma foto de pose. Os fotógrafos estavam ali, na porta da casa dele, tirando fotografias a toda hora. Ignoro que haja dito publicamente para que os romeiros votassem em Pedro Geraldo Costa. Se eu soubesse eu diria. Sei que durante muito tempo houve romaria organizada pelo Pedro Geraldo Costa. Não só como vereador, até como deputado mesmo, ele se valeu do nome do Padre Donizetti para conseguir sua eleição. Mas a resposta à sua pergunta eu não posso dar. Eu me afastei do Padre Donizetti durante as romarias, mesmo porque ele se isolou, ou melhor, isolaram-no dentro da Casa Paroquial.
P – Eu queria de fazer uma pergunta que não fiz aos outros? O senhor deve ter uma visão da igreja de como era antigamente e essa fase de transição para o modo de pensar de hoje, da igreja...
Sebas – Obrigado por o senhor pensar que eu saiba. Sou apenas um observador, sem nenhum compromisso.
P – A pergunta é a seguinte: se o Padre Donizetti vivesse hoje, ele seria um padre moderno. Ele seguiria as orientações da CNBB?
Sebas – Se ele fosse um padre nascido na época atual, orientado de forma diferente, numa escola diferente, numa sociedade diferente, ele seria diferente. Mas ele viveu numa época bastante tradicional. Acho que a igreja é sempre a mesma, os homens é que vão modificando o aspecto exterior. Agora o interior, a parte intrínseca da igreja, ela será eterna. O colorido que é dado à religião moderna é passageiro e tudo isso vai mudar outra vez. É questão de tempo. Se o senhor quiser colocar o Padre Donizetti tradicional, o velho sacerdote, o senhor Vigário, daquela outra época, no mundo de hoje, ele estaria tão desarvorado quanto qualquer pai, qualquer avô, que está passando por uma transição. Agora, com a inteligência que ele tinha, com a bagagem hereditária que ele trouxe, de família, forjada nessa nova concepção da igreja, ele seria uma padre sensacional. Ele iria imprimir ao sacerdócio dele um ritmo, uma projeção que de qualquer maneira ele iria aparecer com destaque. Se você pegar, por exemplo, um político de quarenta anos passados ele tinha um comportamento diferente do de hoje. Ele impunha o voto, comprava o voto. Tinha o curral eleitoral. Hoje nenhum político faz mais isso. É de outra forma, colocam mulheres bonitas sorrindo, televisão. Mudou o sistema. O personagem deve ser estudado dentro do período histórico em que ele viveu. Por que outros padres não fizeram o que ele fez? Justamente porque ele era diferente. E viveu aqui, num lugar pequeno. Eu via Padre Donizetti agindo aqui em Tambaú e achava extraordinário. Tanto que sou um admirador dele incondicional. Agora, se o senhor me perguntar o aspecto místico de tudo o que ocorreu, eu me abstenho em dizer. Não porque não creia, mas porque não tenho autoridade para isso. Apenas a observação de um fato, de um fenômeno, não é prova, é apenas uma opinião.
P – O senhor acha exagerado supervalorizar os milagres?
Sebas – Tudo o que exagerado eu acho que é errado. Eu acho que não deve ser supervalorizado, porque isso imprime um aspecto exagerado. Quem somos nós para analisar um fenômeno transcendental. É preciso gente que entenda, que hajam medidos, teólogos, enfim, discutir o assunto sob todos os aspectos, científicos e teologicamente para saber se aquilo é realmente um milagre ou um fenômeno comum. Agora a nós, ignorantes e leigos, observando de longe, não podemos dizer se é ou não um milagre. O fato ocorreu? Se for o caso de repórter, a coisa muda de figura. O fato aconteceu. Agora se ele é vem de origens místicas ou não, não é o caso da reportagem. O senhor quer um exemplo? Eu não posso dar o nome, mas posso dar a origem: Piracicaba, posto de gasolina da agronomia. Eu parei o carro, no ano passado e o moço que estava colocando gasolina ficava olhando na chapa do carro. Ele disse: “eu estou vendo a chapa de Tambaú e lá me aconteceu uma coisa”. Ai veio o irmão dele e o pai. Ele me contou que ainda era pequeno no tempo da romaria e tinha uma dor de cabeça muito grande sem saber explicar. Os médicos não deram jeito. E a família estava aflita sem saber a solução. Vieram até Tambaú com o menino, receberam uma benção do Padre e voltaram para Piracicaba. No dia seguinte, disse o rapaz, que ele acordou bem, mas a cama dele estava alagada de sangue. Aí o pai continuou a história, dizendo que de fato a cama estava toda ensanguentada, até o travesseiro, ensopado de sangue. Foi uma hemorragia, constatada por um médico. Mas a criança não se lembrava de nada, nem acordou com nada. Suponho eu que a hemorragia teria sido pelo ouvido ou pelo nariz, porque se fosse pela boca teria engasgado. Daí para frente o rapazinho nunca teve mais nada. E vou lhe dar mais uma informação: em Piracicaba tem um professor de sociologia, chamado João Chiarini. Ele disse que esteve aqui em Tambaú. Era um estudioso, cético e esteve aqui trazido pela curiosidade do movimento. Ele trouxe gravador e entrevistou pessoas durante a romaria. Disse-me ele que tem um arquivo sobre o Padre Donizetti e os acontecimentos aqui de Tambaú, gravados e escritos. Ele se ofereceu para vir à Tambaú fazer uma palestra. Falei com algumas pessoas aqui e não se interessaram. E para trazer um homem desses aqui e ser um fracasso, melhor não convidar.
P – Alguns dizem que o Padre Donizetti era às vezes um pouco violento...
Sebas – Eu diria que ele tinha um temperamento forte. Não era alguém que ficasse alheio, que fugisse, que se eximisse, que se afastasse de situações. Ele enfrentava qualquer problema que surgisse. O agressivo é aquele que ofende. Ele não ofendia. Posso dar um exemplo? Aconteceu comigo e eu lembro isso hoje com muita saudade. Houve uma manhã na Casa Paroquial, eu fui convidado e estava lá. Um irmão do Padre Donizetti, Mozart, era mais baixo e mais velho que Padre Donizetti. E ficou conversando comigo. E no meio daquele mundo de gente, o Padre começou a falar com aquele povo lá fora. Eu e o irmão dele estávamos conversando baixinho. Imediatamente o Padre se virou para nós e disse: “O Padre está falando, tenham educação, calem a boca”. Ele estava certo. Se ele estava falando, não tinha nada que ficarmos conversando no fundo da sala. Eu notava isso nele. Essa reação repentina. Mas pessoalmente não houve nunca nenhum atrito com ele. Conversei muitas vezes com ele, muitos assuntos e ele nunca ergueu a voz comigo para chamar a atenção ou para me repreender. Um dia ele chegou e me convidou para trabalhar com ele na Casa Paroquial, para organizar os arquivos, papéis. E eu respondi, que havia ficado honradíssimo, mas disse que não iria. Ele perguntou por que? E eu disse que pedia desculpas e licença para não responder o porque. Eu não queria ser envolvido pelo que ocorria dentro da casa paroquial. Ele me olhou atentamente, era um pouco mais alto que eu, e disse: “Está bem, está bem. Eu conheço você”.


